Segunda-feira, 30 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 29 de março de 2026
Apesar do apelido que remete à classe dos roedores, Ratinho Junior está mais para um gato atravessando uma mesa de cristais, define um aliado. Cauteloso, avesso a bolas divididas e influenciado pela família – principalmente o pai, de quem herdou o nome político –, o governador do Paraná surpreendeu até os aliados mais próximos ao anunciar a desistência do voo presidencial, que parecia nas alturas ao longo de março.
A renúncia ao projeto nacional partiu de pedidos da família, que quis evitar a exposição intrínseca à campanha presidencial, e também teve nuances políticas locais como fator adicional. A filiação ao PL de Sergio Moro, ex-juiz da Lava-Jato que concorrerá ao Palácio Iguaçu pela sigla de Flávio Bolsonaro, fez Ratinho temer dois baques: a derrota do PSD na eleição estadual e um desempenho ruim dele próprio no Paraná na disputa pelo Planalto.
Encontrar o chefe do Executivo na sede do governo, no Centro Cívico de Curitiba, era tarefa árdua no último mês. Foram muitas as viagens a São Paulo e Brasília voltadas para a construção da candidatura. Todos sabiam que o paranaense despontava como o favorito do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Anunciá-lo era pura questão de tempo. Até que, na manhã da última segunda, o telefone do dirigente tocou, e Ratinho o surpreendeu com a notícia.
Antes de falar com Kassab, o agora ex-presidenciável comunicou a decisão a alguns políticos de seu núcleo duro, como Guto Silva, secretário de Cidades, e Marcio Nunes, de Agricultura. Depois, participou de um almoço com mais de 30 deputados e nada falou sobre o recuo, que seria tornado público horas depois.
Apesar de ter mais de 80% de aprovação no governo, Ratinho percebeu que Moro ameaçava a vitória do candidato apoiado por ele, ainda indefinido. A fim de controlar mais o processo sucessório, vai continuar à frente da gestão até o fim do ano. Na projeção nacional, o medo era acabar tendo um desempenho exíguo até entre os paranaenses, dado que Flávio poderia se beneficiar do “voto útil” da direita.
A escolha pela desistência, que abriu espaço para Ronaldo Caiado no PSD – Eduardo Leite corre por fora –, foi um movimento discreto, centrado no seio familiar. Quando o governador havia decidido encarar a eleição, o pai abraçou o projeto, a despeito da preocupação com as implicações trazidas pela visibilidade da campanha. Na hora da verdade, repensou.
Na véspera da decisão, Ratinho tinha se reunido com aliados e até com o marqueteiro, e tudo parecia normal. Projetaram a empreitada eleitoral sem sinais de recuo. Foi à noite, em casa, que o pai e a família deram o ultimato. O apresentador reforçou a apreensão quanto à lupa que seria colocada em cima dos negócios familiares, hoje um império que transcende o mundo das comunicações, e também com questões pessoais que usariam contra eles. Indicou ainda que a eleição seria agressiva e que o bolsonarismo o acusaria de dividir a direita.
Pai presente
Embora tente minimizar, a estrela do Programa do Ratinho é peça central na carreira do filho – a começar pelo nome que Juninho, como é chamado na família, decidiu levar às urnas. Em anos eleitorais, aparece nas campanhas e põe dinheiro. Dos R$ 964,5 mil arrecadados por Junior em 2002, quando concorreu pela primeira vez a deputado, 90% saíram do bolso do comunicador. Desde então, não deixou de irrigar as candidaturas.
Com 11,9 milhões de pessoas, o Paraná tem 399 municípios. Jandaia do Sul, no Norte, é a origem de Carlos Roberto Massa, o Ratinho pai. É uma região de terra vermelha, fértil para a agricultura – característica explorada pelos ingleses, colonizadores daquele canto há pouco mais de 100 anos, e que hoje o empresário e sua família bem aproveitam. Apesar de ter passado a maior parte da vida em Curitiba, Junior se classifica como “pé vermelho”, forma orgulhosa de chamar quem pisa e labuta naquele solo retinto.
Além do conglomerado midiático composto pela Rede Massa, afiliada do SBT no estado, e dezenas de rádios, Ratinho construiu patrimônio calcado no agronegócio – milho, soja e café, por exemplo. Na TV, o salto veio ao comprar do ex-governador Paulo Pimentel, avô do atual prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), as emissoras que virariam em 2008 a Rede Massa. (Com informações do jornal O Globo)