Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026

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Em fevereiro, já virou costume: apoiada na opulência dos números por trás da maior metrópole brasileira, São Paulo busca, ano após ano, vender-se como a mais gigantesca folia nacional. Há poucas semanas, a chave da cidade foi entregue ao Rei Momo pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) com uma saudação que dava o tom: “Começou o maior carnaval do Brasil”. Além de Nunes, que encara a festa popular como um meio de “despertar o empreendedorismo” na população, com números significativos para embasar a afirmação, não são poucos candidatos ao posto país afora.

Na capital paulista, são 627 cortejos pelas ruas durante oito dias de folia. Eles estão distribuídos em 11 circuitos de megablocos, que contam com nomes como Ivete Sangalo, Luísa Sonza, Leo Santana e Baiana System, além do DJ escocês Calvin Harris – atração internacional que, ao cruzar percurso com o tradicional Baixo Augusta, levou caos ao Centro no último fim de semana.

Já no Sambódromo do Anhembi serão 32 escolas na avenida e uma estimativa de 350 mil pessoas. O dado que mais chama a atenção, porém, é a promessa de arrastar 16,5 milhões de foliões pelas ruas, bem como os prometidos R$ 3,4 bilhões injetados na economia paulistana.

O número alardeado de foliões, contudo, é contestado por Mariana Aldrigui, professora da Faculdade de Turismo da USP. Um estudo capitaneado pela pesquisadora estima que o total de pessoas únicas ao longo de todo o período na cidade não deve passar de 2 milhões, com até 10% de turistas compondo o total. Entre os argumentos citados por ela, há uma crítica à metodologia da contagem, que somaria os números de cada dia de folia, resultando em duplicidade, a capacidade da rede hoteleira paulistana e até dados de celulares conectados.

“Assumindo 100% de ocupação, o que é improvável, a capacidade hoteleira é próxima de 84 mil leitos. Além disso, dados de 2024 mostram que o número de celulares conectados na cidade cai 20% no carnaval, enquanto Salvador e Rio, por exemplo, aumentam entre 15% e 20%”, elenca Aldrigui, que não teve a análise refutada pela prefeitura.

Do Rio ao Nordeste

No Rio, outra aspirante óbvia ao status de principal carnaval, a marca mais evidente da folia é o tradicional desfile das escolas de samba, que começaram neste sábado com a Série A, mas a festa já está rolando desde 17 de janeiro e se estenderá por mais de um mês, até o dia 22, com 458 blocos de rua reconhecidos pela prefeitura. Na alegria carioca, há o convívio de megablocos, encabeçados por artistas feito Anitta e Ludmilla, cortejos centenários, como o Cordão da Bola Preta, e centenas de novos expoentes, do samba ao funk. Uma lista que leva Bernardo Fellows, presidente da Riotur, que organiza o carnaval da cidade, a discordar das afirmações do prefeito paulista:

“O carnaval brasileiro é amplo, plural e diverso, refletindo a riqueza cultural de cada região. É uma festa democrática, e movimenta o país de Norte a Sul. Mas é inegável: o carnaval do Rio é reconhecido no Brasil e no mundo como o maior espetáculo da Terra. No ano passado, recebemos cerca de 1,8 milhão de turistas no período, com presença significativa de estrangeiros. Para 2026, a expectativa é alcançar 2 milhões de visitantes.”

Enquanto isso, no Nordeste, duas postulantes atravessam o samba das representantes sudestinas com uma chancela de peso: o Guinness World Records. Se Salvador ostenta o título de maior carnaval de trio elétrico do mundo, o Galo da Madrugada, em Recife, é considerado pelo livro dos recordes o maior bloco carnavalesco do planeta. No caso da capital baiana, são esperados 1,2 milhão de turistas este ano, com a promessa de movimentar R$ 2,6 bilhões ao longo da festa. A cidade anuncia 1,2 mil atrações, com R$ 60 milhões só para o cachê dos artistas que se apresentam nos trios.

“São Paulo é a cidade mais populosa do país, é natural ter números grandiosos. Mas o engraçado é que, para conseguir isso, eles precisam chamar artistas baianos, como a Ivete. Não queremos um bilhão de pessoas, mas oferecer um serviço de qualidade. E isso temos feito ao longo dos anos”, provoca Isaac Edington, presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur).

Já o presidente da Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur), Eduardo Loyo, lembra que o Galo da Madrugada leva as tradições do estado para o carnaval no Ibirapuera, em São Paulo, e virou até produto de exportação:

“Teve até o Galo na Neve, no frio de Toronto. O carnaval pernambucano é muito diverso: temos os papangus de Bezerros, os caretas e caiporas em Triunfo, os bonecos gigantes de Belém do São Francisco e Olinda. Por conta dessa diversidade, temos 95% de ocupação na rede hoteleira em todo o estado, não só em Recife e Olinda”, pontua Loyo, anunciando a expectativa de que R$ 3,5 bilhões girem pelo território pernambucano no período.

Identidade

É essa diversidade — considerada o fator primordial da folia brasileira pela especialista em carnaval Marina Frydberg, professora de Produção Cultural da UFF — que fica em risco quando a festa torna-se palco de disputa política:

“Se o folião brinca com a ideia de qual é o maior carnaval do Brasil, não tem o menor problema. A competição faz parte da construção da identidade das festas, faz parte da brincadeira. Fica complicado quando isso passa a ser discurso do poder público. Carnaval rende dinheiro, mas o plano econômico não pode se sobrepor à importância cultural do evento. Em São Paulo, teve um bloco em que todo mundo se vestia da cor da marca do patrocinador. Isso tolhe a diversidade e identidade da manifestação cultural e desrespeita a lógica do carnaval.”

Segundo a Embratur, a festa vai ser grande no Brasil inteiro. Dados referentes à venda de passagens aéreas internacionais com destino ao país revelaram que há alta de turistas em todas as capitais na comparação com o ano passado. A emissão de bilhetes no período cresceu 21% em 2026, puxada justamente por Recife e Olinda (49%), Salvador (43%), São Paulo (11%) e Rio (9%).

“Os carnavais de Rio, São Paulo, Recife, Salvador, Belo Horizonte, entre outros, são as maiores vitrines culturais e turísticas do Brasil, uma expressão que fortalece a imagem do país como destino criativo, diverso, inclusivo e vibrante”, diz, sem mexer no vespeiro, Marcelo Freixo, presidente da Embratur.

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