Domingo, 11 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 10 de janeiro de 2026
São inaceitáveis a repressão e o cerceamento ao trabalho de jornalistas na Venezuela. Embora a perseguição à imprensa seja marca indelével da ditadura chavista, esperava-se comportamento diferente depois da captura do ditador Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, durante a operação militar deflagrada há uma semana pelos Estados Unidos. O que acontece hoje na Venezuela é de interesse do mundo todo. É natural, portanto, que o país seja procurado por uma legião de correspondentes estrangeiros. Todos deveriam poder trabalhar com plena liberdade.
Sinal eloquente da intolerância foi dado na posse da presidente interina Delcy Rodríguez na Assembleia Nacional, no dia 5, quando autoridades venezuelanas detiveram 14 jornalistas que cobriam o evento — a maioria trabalhava para agências internacionais. Posteriormente, um dos profissionais foi deportado, e os demais libertados. A truculência não se restringiu à detenção. Segundo o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa (SNTP), celulares e equipamentos foram apreendidos e mensagens e ligações inspecionadas, uma afronta à privacidade e à liberdade de imprensa.
Nos últimos dias, outros dois correspondentes estrangeiros, um espanhol e um colombiano, foram detidos na fronteira entre Cúcuta e San Antonio e libertados depois. Iniciativas desse tipo servem para intimidar. Em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela, jornalistas têm recebido ordens expressas de agentes venezuelanos para não atravessar a linha. O clima entre os profissionais é de apreensão. “Trabalhar na Venezuela implica altíssimo risco. É um cenário de guerra”, disse Patricia Rodríguez, diretora do Notícias Ya e integrante da Associação de Imprensa Estrangeira no país.
Os fatos mostram que pouco ou nada mudou na turbulenta relação das autoridades venezuelanas com a imprensa. Mais de 400 veículos de comunicação fecharam nos últimos 20 anos de ditadura chavista, segundo o SNTP. Calar a imprensa profissional era uma forma de impedir a divulgação dos horrores que afligiam — e ainda afligem — o povo venezuelano, abafar vozes discordantes e incensar as versões oficiais, cuidadosamente forjadas para que o chavismo se perpetuasse no poder.
O cerco à liberdade de imprensa, pilar de qualquer sociedade livre, é só um sintoma de que o poder na Venezuela pode ter mudado, mas não muito. É verdade que há sinais tímidos, como o anúncio feito pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, de libertação “de um número significativo” de presos políticos, incluindo cidadãos estrangeiros. Mas os homens fortes do regime, como o ministro do Interior e da Justiça, Diosdado Cabello, ou o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, continuam mandando no país. E mandando muito.
Não se sabe o que acontecerá na Venezuela pós-Maduro. O presidente Donald Trump tem dito que o governo interino de Delcy Rodríguez, formado por aliados do ex-ditador, tem cooperado com os Estados Unidos, e isso parece satisfazê-lo por ora. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o governo americano estruturou um plano em três fases. A primeira é de estabilização, a segunda, de recuperação, e a terceira é voltada à transição política. Não há detalhes ou prazos, o que torna o cenário incerto. Certeza é que, por enquanto, a liberdade na Venezuela continua a ser uma miragem. (Opinião/O Globo)