Sábado, 24 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 24 de janeiro de 2026
Desde cedo, a ansiedade foi minha companheira inseparável. Adolescente, com apenas 13 anos, tive a oportunidade de trabalhar como menor aprendiz no Banco do Brasil. Aos 18, já concursado, testemunhei de dentro da instituição as grandes mudanças que marcaram sua trajetória. O Banco do Brasil, fundado em 12 de outubro de 1808 por Dom João VI, foi o primeiro banco brasileiro, criado para sustentar as finanças da Coroa e, por muito tempo, funcionou quase como uma extensão do Estado.
Nos anos 1980, porém, assisti a um processo de transformação profundo: o banco deixou de ser o “caixa do governo”, perdendo funções bilionárias que migraram para o Banco Central, ao Tesouro Nacional e a Caixa Econômica Federal. Esse foi meu primeiro contato com o conceito de megamudança — uma ruptura que obrigou colegas acostumados a rotinas públicas a se reinventarem em um mercado cada vez mais competitivo e comercial.
Naquele tempo, inovação era vista com desconfiança. O primeiro cartão de crédito parecia uma extravagância: “dinheiro de plástico? Isso nunca vai funcionar”. O seguro de automóveis era considerado um gasto inútil. E, no entanto, cada uma dessas novidades se consolidou, abrindo caminho para produtos como consórcios, previdência privada e novos tipos de investimento.
A inovação era vertical, imposta de cima para baixo, e eu, inquieto, buscava sempre torná-la prática, eficiente. Trabalhando na iniciativa privada, aprendi que eficiência significava produzir mais com menos, cortar gastos e aumentar lucros. Aprender a usar editores de texto e planilhas eletrônicas foi um desafio surreal, mas também um marco de adaptação.
Enquanto isso, minha cidade natal na Serra Gaúcha se transformava rapidamente. O arroio lindo que virou esgoto, árvores centenárias foram derrubadas para dar lugar a prédios, e cada palmo de terra sendo ocupado. Já naquela época me incomodava a pergunta: seria possível sustentar esse ritmo de progresso sem destruir o que nos cerca? Hoje, a resposta parece ainda mais urgente. As mudanças climáticas são o pano de fundo inevitável de qualquer debate sobre inovação. O progresso não pode ser medido apenas em eficiência ou lucro; precisa ser avaliado também em termos de sustentabilidade e responsabilidade com as gerações futuras.
Agora, em 2026, vivemos um tempo em que as transformações acontecem de forma líquida, conceito trabalhado pelo filósofo Zygmunt Bauman. Ele descreveu a modernidade líquida como uma era em que nada é sólido ou duradouro: relações, instituições e tecnologias se dissolvem e se reconfiguram em velocidade impressionante.
Se antes décadas eram necessárias para consolidar mudanças, hoje basta um ano — ou até meses. Entre 2025 e 2026, já vimos avanços estruturais em inteligência artificial, energias renováveis e robôs humanoides. Essas inovações não apenas alteram o mercado, mas também nossa forma de viver, trabalhar e nos relacionar. A IA redefine profissões, os robôs desafiam nossa noção de humanidade e a transição energética nos obriga a repensar hábitos de consumo.
O impacto humano é profundo.
A ansiedade que me acompanhava na juventude parece agora compartilhada por toda a sociedade: medo de perder relevância, de ser substituído por máquinas, de não acompanhar o ritmo das mudanças. Ao mesmo tempo, há fascínio e esperança. A inovação deixou de ser vertical e passou a ser horizontal, participativa, moldada por redes e pela colaboração global. Mas essa liquidez traz também fragilidade: o que hoje é revolucionário pode amanhã ser obsoleto.
O jovem ansioso que um dia duvidou do cartão de crédito agora observa, com espanto e inquietação, um tsunami de inovações que redefine o mundo em meses. E, junto com esse progresso, carrego a preocupação ambiental que nunca me abandonou. Viver o hoje é essencial, mas precisamos olhar para o amanhã que não será nosso, será das futuras gerações. O desafio é equilibrar a velocidade da tecnologia com a urgência da sustentabilidade. Afinal, não basta inovar: é preciso garantir que o futuro seja habitável.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética.
Contato: rena.zimm@gmail.com