Terça-feira, 27 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 27 de janeiro de 2026
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um medicamento que, ao que tudo indica, pode reduzir drasticamente os casos de aids, doença infecciosa cujo diagnóstico já foi sinônimo de morte. Trata-se do lenacapavir, um fármaco injetável a cada seis meses, por via subcutânea, e que apresenta eficácia entre 96% e 100% na prevenção da infecção pelo HIV.
O entusiasmo global com o lenacapavir tem respaldo em pesquisa científica. Estudos conduzidos na África e em outros continentes atestaram o sucesso do medicamento na chamada profilaxia pré-exposição (PrEP). Na América do Sul, houve testes também no Brasil. Quem está potencialmente exposto ao HIV por qualquer razão está apto, em tese, a tomar o medicamento desenvolvido pela farmacêutica norte-americana Gilead Sciences. O êxito restou comprovado em diferentes grupos, incluindo adolescentes, mulheres, homens e pessoas transexuais.
Ainda não se pode falar propriamente em “vacina”, haja vista que o lenacapavir não provoca uma resposta do sistema imunológico à infecção pelo HIV. De acordo com especialistas, o lenacapavir bloqueia a formação de uma cápsula que envolve e protege o material genético do vírus, impedindo sua ação contra o organismo.
Quando barreiras científicas são superadas, é comum que o principal obstáculo imediato seja o custo da inovação – e com o lenacapavir não é diferente. A distribuição do fármaco no curto e no médio prazos esbarra em seu preço elevado: nos Estados Unidos, as duas doses anuais custam cerca de US$ 28 mil por paciente. Isso, porém, não é um atestado de inviabilidade. Segundo estudo publicado na revista The Lancet, uma cadeia produtiva otimizada poderia reduzir o custo de produção do lenacapavir para algo entre US$ 25 e US$ 46 por paciente ao ano.
Uma eventual incorporação do lenacapavir ao Sistema Único de Saúde (SUS) representaria um avanço inequívoco. O Brasil já oferece a PrEP em comprimidos, cuja eficácia depende de adesão diária rigorosa – algo que pode ser comprometido pelo esquecimento ou pela interrupção do tratamento. O principal diferencial do lenacapavir está justamente na proteção prolongada, assegurada por uma única injeção subcutânea a cada seis meses, o que tende a ampliar a adesão e a eficácia da prevenção.
O País, ademais, acumula uma trajetória vitoriosa no enfrentamento da aids desde os anos 1990. Foi no governo Fernando Henrique Cardoso, sob a gestão do então ministro da Saúde, José Serra, que o Brasil se afirmou como referência global ao garantir, pelo SUS, a distribuição dos chamados coquetéis antirretrovirais, ampliando a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. Trata-se de uma política pública bem concebida, que se consolidou como política de Estado e deixou um legado social duradouro.
Com experiência institucional, capacidade industrial e escala compatível, o Brasil reúne todas as condições para avançar na incorporação do lenacapavir. A aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária é, portanto, mais um passo concreto na busca da superação da aids.