Quinta-feira, 15 de Outubro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de outubro de 2026
Imagens falsas de nudez criadas sem consentimento com o uso de inteligência artificial generativa, as chamadas deepnudes, têm se disseminado por sites e aplicativos sem controle efetivo, apontam especialistas. As ferramentas permitem a leigos em tecnologia gerar e distribuir as montagens.
Um estudo sobre essas ferramentas publicado neste mês pelo Instituto de Diálogos Estratégicos (ISD em inglês, um centro de pesquisa e debates que examina as tendências da desinformação global) identificou 181 sites que receberam em média 40,1 milhões de visitantes únicos mensais entre dezembro de 2025 e março de 2026.
Antes de ações recentes de remoção, segundo o levantamento do ISD, essas ferramentas disponibilizadas nas lojas Google Play e Apple App Store foram baixadas mais de 705 milhões de vezes em todo o mundo, gerando uma receita estimada de US$ 117 milhões, o equivalente a R$ 593 milhões em valores convertidos.
Em São Paulo, o uso de IA têm aparecido de forma recorrente nas investigações conduzidas pelo Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital), da Polícia Civil. A prática é associada a outros crimes que chegam a vítimas e familiares.
“O deepnude sempre vem acompanhado de outro crime, com uma extorsão, ameaça. Se as vítimas não passaram por isso, alguém da família passou”, diz a delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, que chefia o Noad, acrescentando que as montagens são enviadas para espaços de convívio, como escola e igreja.
Não há estatísticas disponíveis que permitam comparar a evolução desse uso. O núcleo estima que as imagens de nudez chegaram a 1.800 casos registrados desde a criação da unidade, em novembro de 2024.
Os autores, que têm idades de 12 a 21 anos, recorrem a contas temporárias e perfis falsos para ocultar a identidade em redes com pouca ou nenhuma moderação.
“Hoje a gente tem mais de 700 alvos presos ou apreendidos em razão dos trabalhos de investigação do núcleo. Diria que 80% usaram em algum momento a inteligência artificial para humilhação e extorsão da vítima”, afirma.
Em um mapeamento feito em instituições de ensino públicas e privadas de agosto de 2025 a fevereiro deste ano, a SaferNet Brasil identificou 17 casos com 222 vítimas mulheres, estudantes de 12 a 17 anos e professoras, praticados por 60 infratores homens, da mesma faixa etária. Em dois casos, as imagens foram vendidas em grupos do Telegram.
Juliana Cunha, diretora da SaferNet Brasil, afirma que, enquanto em 2023 o acesso a ferramentas de inteligência artificial estava restrito a grupos com conhecimento técnico, a barreira de acesso hoje é quase inexistente.
“Tem uma rede que precisa ser asfixiada financeiramente e falta banir tecnologias e aplicativos dessa natureza”, diz.
Dados do Google Trends mostram que o interesse por deepnudes registrou o maior nível de interesse em 2024. As buscas por inteligência artificial associada à nudez seguem em evolução.
“Há uma prática social de consumir conteúdo de nudez e sexo sem consentimento e essas tecnologias permitem fazer isso de forma rápida, fácil e com baixo custo”, diz Cunha.
Pelo canal de ajuda, ela conta que as vítimas relatam dúvidas sobre como fazer a denúncia desse tipo de crime e receio de que a violação seja subestimada.
A orientação é fazer o boletim de ocorrência em delegacias especializadas em crimes contra mulher e reunir todas as evidências disponíveis, como capturas de tela e registros de mensagens, além de reportar na própria plataforma onde a ocorrência aconteceu.
Em nota, o Telegram afirma que proíbe a distribuição de material de abuso sexual infantil e de conteúdo íntimo não consensual, incluindo pornografia deepfake.
Neste ano, informa que removeu 310.360 grupos e canais relacionados a abuso sexual infantil, e que tem moderação humana e com uso de inteligência artificial, além de canais de denúncia dentro do aplicativo.
“O Telegram escaneia todas as mídias enviadas em sua plataforma pública, comparando-as com um banco de hashes de conteúdos previamente removidos por moderadores, complementado por bases de dados da Internet Watch Foundation e por denúncias de ONGs globalmente”, diz.
Professora da FGV Direito do Rio, Yasmin Curzi afirma que a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) deveria atuar em relação às empresas que disponibilizam as ferramentas que usam imagens sem consentimento.
Em nota, a ANPD afirma que faz o monitoramento das plataformas e que processos de fiscalização e sanção podem ser abertos quando identificadas infrações à Lei Geral de Proteção de Dados. Como exemplo, citou o processo instaurado no início do ano contra a rede social X, após denúncias do uso da inteligência artificial Grok para produzir conteúdo sintético de natureza sexual, inclusive de adolescentes.
Procurado, o escritório de advocacia responsável pela defesa do X não quis se manifestar. (Com informações da Folha de S. Paulo)