Sábado, 07 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 6 de março de 2026
Alvo da terceira fase da operação Compliance Zero, o ex-diretor de fiscalização do Banco Central (BC) Paulo Sergio Neves de Souza vendeu por R$ 3 milhões uma propriedade rural para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O Valor Econômico localizou uma certidão no Cartório de Imóveis de Muzambinho, em Minas Gerais, sobre a venda de uma propriedade rural de 21,78 hectares por Paulo Sérgio Neves de Souza e por seu irmão, Luis Roberto Neves de Souza, para a Pipe Participações Ltda., que tem como sócio Fabiano Zettel.
A operação foi realizada em 13 de janeiro de 2021, quando Paulo Souza ainda era diretor de fiscalização do Banco Central, o que sugere que ele tem um longo relacionamento com pessoas do entorno do Banco Master.
Essa não é a única ligação de Souza com o grupo de Vorcaro. O irmão de Paulo Souza, Luis Roberto, é administrador da Noah Empreendimentos e Participações, que tem como sócia a mesma Pipe Participações – que, por sua vez, tem como sócio o cunhado de Daniel Vortaro.
Outra coincidência é que essa empresa tem capital social de R$ 3,1 milhões, muito parecido com o valor da propriedade vendida pelos irmãos Souza a Zettel.
As apurações das autoridades indicam que essa foi uma venda fictícia da propriedade. O negócio é feito pelo valor de mercado, o pagamento foi efetuado, mas na prática o vendedor segue na posse e controle da fazenda. Isso mostra um possível padrão em pagamentos feitos por Zettel a autoridades de Brasília, que está sendo objeto de investigação policial.
Conforme revelou o Valor, nos corredores do BC comentava-se que Souza estava exibindo padrão de vida acima de sua renda – de R$ 41,5 mil mensais – com compra de imóveis e realização de festas.
A terceira fase da operação Compliance Zero, deflagrada nesta semana, teve Souza como um dos alvos. Ele foi submetido a medidas cautelares pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica, manter-se afastado do BC e não conversar com outras pessoas envolvidas no suposto esquema criminoso.
A decisão afirma que Souza era uma espécie de consultor informal de Vorcaro e do Banco Master, revendo e dando orientações sobre a documentação que a instituição encaminhava para análise do Banco Central na operação de compra da instituição pelo Banco de Brasilia (BRB).
Zettel, que foi preso na mesma operação, é apontado no relatório da Polícia Federal que embasou a decisão de Mendonça como uma espécie de operador financeiro do suposto esquema criminoso. Ele era o responsável por fazer pagamentos por meio de laranjas, empresas de fachada, movimentações de fundos e contratos simulados.
A fazenda vendida se localiza no município de Juruaia (MG), uma área tradicional de produção cafeeira. A certidão de registro mostra que a propriedade registrou pelo menos duas décadas de financiamentos para custeio da lavoura de café, concedidos por instituições como Cooxupé, Sicoob Agrocredi e FunCafé. As Cédulas Rurais registradas mostram que a fazenda mantinha produção contínua, com infraestrutura agrícola como terreiro e tulha.
Em 2023, depois que terminou o seu mandato de diretor do BC, Souza foi nomeado chefe-adjunto do Departamento de Supervisão (Desup) da autoridade monetária. A decisão do ministro Mendonça, do STF, diz que na ocasião Souza enviou uma mensagem a Vorcaro com a portaria de nomeação para o novo cargo. “Parabéns”, respondeu Vorcaro, segundo relato nessa decisão do ministro.
Souza foi afastado de suas funções no Banco Central, conforme revelado pelo Valor, depois que ele redigiu e enviou para os advogados de Vorcaro um relato que serviu de álibi para seu pedido de soltura, em novembro do ano passado. Vorcaro havia sido preso no aeroporto de Guarulhos na noite de 17 de novembro, entre outros motivos, porque estava procurando fugir do País, segundo a PF. O então chefe-adjunto do Desup fez um relato de uma reunião dentro do BC em que Vorcaro disse que iria aos Emirados Árabes para fechar a venda do Master para investidores árabes.
Durante o processo de análise da compra do Master pelo BRB, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, entrou em choque algumas vezes com Souza, que insistia que o banco de Vorcaro teria um balanço sólido depois da operação.
Além de Souza, a nova fase da operação Compliance Zero teve como alvo o chefe do Desup, Belline Santana. A decisão de Mendonça afirma que ele teria recebido dinheiro de Zettel por meio da empresa Varajo Consultoria Empresarial, relativo a um contrato fictício de prestação de assessoria. (Com informações do Valor Econômico)