Segunda-feira, 27 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 27 de abril de 2026

O churrasco gaúcho sempre foi um território de domínio claro: fogo, carne e convivência. No Jockey Club de Porto Alegre, a edição deste ano do Expochurrasco marcou uma mudança sutil, mas significativa. Ao incorporar, pela primeira vez, a Arena do Vinho Brasileiro, o evento passou a integrar o vinho nacional como parte efetiva da experiência — não como complemento, mas como elemento que dialoga diretamente com a cultura da brasa.
A presença de seis vinícolas — Família Cheguhem, Vinícola Cainelli, Cave Bertamoni, Vinícola Lovatel, Vinhos Brocardo e Cooperativa Nova Aliança — foi além da simples oferta de rótulos. Ela refletiu um movimento consistente da vitivinicultura brasileira em direção a novos territórios de consumo, especialmente aqueles marcados pela informalidade e pela forte identidade regional.
Não se tratou apenas de inserir o vinho em um novo ambiente, mas de reposicioná-lo. Tradicionalmente associado a ocasiões formais, o vinho circulou em um contexto dinâmico, de grande fluxo e experimentação livre. Ao ser servido em taça ou garrafa, sem protocolos rígidos, tornou-se mais acessível e convidou o público a construir suas próprias harmonizações.
A Arena do Vinho Brasileiro funcionou, assim, como um espaço de descoberta. Entre uma estação e outra de churrasco, o visitante encontrou rótulos que dialogavam com diferentes cortes, níveis de gordura e técnicas de preparo. Tintos com maior estrutura mostraram afinidade com carnes mais intensas; espumantes e brancos ofereceram contraste e frescor, ampliando a percepção de sabores e equilibrando o paladar.
Para preservar a temperatura ideal de serviço — especialmente no caso dos brancos e espumantes —, uma solução prática chamou a atenção do público: sacolas plásticas com gelo foram disponibilizadas, permitindo que os visitantes circulassem pelo evento com suas garrafas devidamente resfriadas. O recurso simples reforçou a proposta de consumo descomplicado, garantindo que cada rótulo fosse degustado em condições adequadas, mesmo em um ambiente aberto e de alta circulação.
“O churrasco e o vinho são dois ícones do nosso estado, de forma que a conexão entre os dois é inegável. Assim, uni-los em um evento é celebrar a cultura gaúcha”, afirmou Cristina Carniel, gerente de promoção para o mercado interno do Consevitis-RS. A fala sintetiza uma estratégia mais ampla: aproximar o vinho do cotidiano e estimular o consumo interno por meio da experiência direta.
Esse avanço ocorreu em paralelo à evolução da qualidade dos vinhos brasileiros. Investimentos em tecnologia, manejo de vinhedos e precisão enológica vêm resultando em rótulos mais consistentes, com identidade definida e maior capacidade de harmonização. A diversidade de estilos — de tintos estruturados a espumantes de acidez vibrante — permite que o vinho acompanhe a complexidade crescente dos preparos associados ao churrasco.
A iniciativa foi conduzida pelo Consevitis-RS em parceria com a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação. Em um cenário de consumo ainda limitado no Brasil, ações desse tipo cumprem papel estratégico ao reduzir barreiras culturais e ampliar o acesso ao vinho nacional.
Ao final, o que se observou não foi apenas a presença do vinho em um evento tradicionalmente associado à carne, mas uma transformação na forma como o churrasco é vivido. A brasa permaneceu no centro, mas ao redor dela se construiu uma experiência mais ampla — onde o vinho brasileiro encontrou espaço, público e, sobretudo, pertinência. (por Gisele Flores -gisele@pampa.com.br)