Sexta-feira, 29 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 28 de maio de 2026
“A inteligência artificial não está nem aí para os humanos.” A afirmação da neurocientista Suzana Herculano-Houzel dá o tom da conversa: um alerta sobre os limites da tecnologia e o potencial ainda subestimado do cérebro humano.
Professora da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, Suzana Herculano-Houzel é uma das principais referências mundiais em neurociência. Seu trabalho revolucionou a área ao estabelecer, com precisão inédita, o número de neurônios do cérebro humano. São 86 bilhões – e não 100 bilhões como se acreditava.
Também desenvolveu um método inovador para contar células cerebrais, mudando a forma como a ciência investiga o órgão mais complexo do corpo. São descobertas que ajudaram a redefinir o entendimento sobre nossa capacidade cognitiva.
Mais recentemente, suas pesquisas indicaram que o Tyrannosaurus rex pode ter sido muito mais inteligente do que se imaginava, outro avanço que dialoga com perguntas centrais do nosso tempo. O que significa ser inteligente? Como ser mais criativo e inovador?
Suzana fala sobre criatividade, IA, desenvolvimento infantil e as possibilidades do cérebro em um mundo cada vez mais acelerado. Confira trechos da entrevista:
Várias pesquisas conduzidas pela senhora redefiniram o que sabemos sobre o cérebro. O que essas descobertas indicam sobre a nossa capacidade de inovar?
O cérebro humano não é uma exceção à regra. Ele possui um número enorme de neurônios corticais, que são justamente os neurônios que nos tornam flexíveis e que, portanto, permitem essa inovação. Aprendemos também que esses neurônios precisam de tempo. Acumular conhecimentos e experiências, a base da inovação, leva tempo. Para isso, é preciso oportunidade e o acesso às escolas e às universidades e às maneiras de treinar e informar o cérebro. O maior número de neurônios é muito importante, mas isso só não basta.
Isso significa que é possível treinar a criatividade e a inovação? Ou elas têm ligação com fatores biológicos?
A capacidade de criar coisas novas é biológica. Nascemos com ela. Com a prática e o uso, essa capacidade se transforma em habilidade de fato. Esse processo depende de prática. Sim, podemos treinar e aprender a inovar e a agir de forma mais criativa. A partir daí, começamos a entender o que é a criatividade.
Como assim?
A criatividade é a capacidade do cérebro de ser flexível e de formar combinações novas de forma a criar soluções diferentes para novos problemas. Isso nos leva a outra característica que também depende de prática, experiência, aprendizado, que é acumular uma base de dados própria, a experiência de vida. Isso é o que fazemos quando treinamos os grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT. Precisamos fornecer aos nossos algoritmos informação, experiências e oportunidades.
Ao delegar alguma tarefa cognitiva para a IA, corremos o risco de usar menos ou de ‘desusar’ o cérebro?
Com certeza. Quando terceirizamos a capacidade do cérebro, abrimos mão da oportunidade de usá-lo e melhorá-lo pelo uso e de, como eu mencionei antes, transformar a capacidade biológica em habilidade de fato. A experiência requer uso, esforço, empenho, e que você se importe com aquilo que está fazendo.
Toda vez que a gente delega uma tarefa ou uma decisão para um sistema externo, como uma inteligência artificial, ou para outra pessoa, é como perder uma oportunidade. Quando isso acontece, abrimos mão do que é mais precioso, que é a experiência de desenvolver e treinar o próprio cérebro.
Quais são os riscos de treinar menos o cérebro?
Quanto mais usamos um músculo, mais forte ele fica. Ele fica mais rápido e mais pronto para a ação. É a mesma coisa com o cérebro. Quando terceirizamos, abrimos mão da oportunidade de fortalecer o cérebro e desenvolver nossas próprias habilidades.
Qual é o risco do uso excessivo das redes sociais para o cérebro?
Até onde eu sei não existe nada do tipo: “seis horas de tela por dia vão fritar seus neurônios ou vão matar seus neurônios”. Isso é besteira. Mesmo quando você está rolando tela em busca da próxima, você está agindo. Seu cérebro está funcionando. O grande problema é que você está fazendo algo que não te envolve, não te engaja, não exige das suas capacidades e não te dá oportunidade de se desenvolver e de se tornar mais você.
É um tempo pouco aproveitado?
É um tempo usado de maneira passiva. A superexposição às telas é a oportunidade perdida, o tempo jogado pela janela. O tempo que poderia ser usado para engrandecer a nossa maneira de pensar, interagir com as pessoas, aprender. Quando está rolando a tela, você está sendo um consumidor passivo de uma empresa que está ganhando dinheiro às suas custas. Você não está fritando seus neurônios, mas está jogando seu tempo de vida pela janela. E também todas as suas oportunidades de desenvolvimento. E isso a gente não ganha de volta. Com informações do portal Estadão.