Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026

Home Variedades A causa do feminicídio no Brasil: como educação e família ajudam na prevenção

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O feminicídio no Brasil não é um fenômeno isolado nem imprevisível. Ele é o resultado mais extremo de uma violência que se constrói ao longo do tempo, dentro das relações afetivas, familiares e sociais. Mesmo com ampla divulgação nos meios de comunicação, essas mortes continuam sendo tratadas como tragédias individuais, quando, na verdade, revelam um problema social profundo.

Mas qual é a causa do feminicídio no Brasil? Como a educação e a família ajudam na prevenção? Qual é a ajuda necessária para o feminicídio no Brasil? As respostas para essas e outras perguntas estão na entrevista com Elisabete Garcia Marangon, mestre em Psicologia Clínica e especialista em Terapia de Casal e Família.

Dados do Atlas da Violência 2025 mostram que muitas mulheres são assassinadas dentro de casa, em sua maioria por parceiros ou ex-parceiros, após um histórico de controle, ameaças e violência psicológica. Essas mortes não acontecem de forma abrupta. Elas são anunciadas.

“Na minha prática clínica e na pesquisa acadêmica que desenvolvi ao longo dos últimos anos, esse padrão se repete com força: a violência raramente aparece de repente. Ela costuma ser construída no cotidiano das relações, muitas vezes normalizada antes de ser reconhecida como risco. Para compreender por que o feminicídio persiste no país, é preciso deslocar o olhar do ato final e observar os padrões de relação que se repetem ao longo do tempo”, explica a especialista.

A violência se repete quando padrões familiares não são rompidos

O feminicídio costuma ser o ponto final de uma violência que atravessa gerações. Em muitos contextos familiares, padrões de controle, silenciamento e hierarquias rígidas entre homens e mulheres são transmitidos como formas “normais” de convivência. Mulheres aprendem a suportar, homens aprendem a não demonstrar fragilidade, e conflitos são empurrados para o silêncio.

Esses padrões não se mantêm apenas no âmbito privado. Eles são reforçados por uma cultura que naturaliza valores machistas e por uma ausência histórica de espaços educativos que promovam diálogo, escuta e comunicação não violenta. Quando essas transmissões não são reconhecidas e interrompidas, a violência muda de forma, mas continua encontrando espaço para se repetir.

Nem todas as mulheres estão expostas da mesma forma

A violência contra as mulheres no Brasil não atinge todas da mesma maneira. Mulheres negras seguem sendo as principais vítimas de homicídio, reflexo do racismo estrutural e da desigualdade social. A realidade das mulheres trans é ainda mais grave. No país, a expectativa de vida dessa população gira em torno de 35 anos, marcada por transfobia, exclusão familiar, dificuldade de acesso à educação, trabalho e serviços de saúde.

Educação é estratégia de prevenção

Falar em educação como prevenção ao feminicídio exige ir além de campanhas pontuais ou conteúdos escolares isolados. Educação, nesse contexto, diz respeito à forma como uma sociedade ensina seus membros a lidar com emoções, frustrações, conflitos e diferenças ao longo da vida. Quando esse aprendizado falha, a violência passa a ocupar o lugar do diálogo.

A escola é um espaço estratégico para romper ciclos de violência. É nela que crianças e adolescentes podem aprender práticas de comunicação não violenta, educação emocional e reflexão crítica sobre papéis de gênero. Esses aprendizados ampliam repertórios relacionais e oferecem alternativas concretas ao uso do controle e da agressividade como formas de resolução de conflitos.

Esse trabalho, no entanto, não pode ser sustentado apenas pela escola ou pela família de forma isolada. Quando o Estado investe em políticas públicas consistentes, como formação continuada de educadores, campanhas educativas permanentes e ações intersetoriais voltadas à cultura de paz, amplia-se a capacidade coletiva de prevenção da violência. A ausência dessas políticas mantém a reprodução de valores machistas e naturaliza comportamentos que, mais tarde, podem se transformar em agressões graves.

A família como espaço de ruptura e proteção

A família é um dos primeiros espaços onde se aprende a se relacionar. Quando há diálogo, reconhecimento emocional e possibilidade de elaboração dos conflitos, ela se torna um importante fator de proteção. Quando esses elementos estão ausentes, padrões violentos tendem a se repetir.

Fortalecer famílias não significa idealizá-las, mas oferecer suporte, acesso a serviços psicológicos e políticas públicas que reconheçam seu papel central na prevenção da violência. Famílias acompanhadas e apoiadas têm mais condições de interromper transmissões históricas de silenciamento, controle e desigualdade.

O enfrentamento ao feminicídio exige mais do que punição. Exige prevenção, educação e cuidado com as relações. Enquanto a sociedade seguir reagindo apenas depois que a violência atinge seu ponto mais extremo, continuará lidando com perdas irreversíveis.

Romper ciclos de violência é uma responsabilidade coletiva que começa na forma como educamos, nos comunicamos e cuidamos uns dos outros, dentro das famílias, nas escolas e nas políticas públicas que escolhemos sustentar. Com informações do portal G1.

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