Quinta-feira, 30 de Junho de 2022

Home Saúde A humanidade pode ter iniciado a era de ouro das vacinas

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Pouco mais de um ano atrás, Anna Blakney trabalhava em um campo da ciência específico e relativamente desconhecido em um laboratório em Londres. Na época, poucas pessoas fora do seu círculo científico haviam ouvido falar em vacinas de mRNA, até porque ainda não havia nenhuma disponível. Em 2019, ela deu uma palestra em uma conferência anual que reuniu um público pequeno, de algumas dezenas de pessoas.

Mas, hoje, ela é muito requisitada: é professora assistente da Universidade da Colúmbia Britânica (UBC, na sigla em inglês), no Canadá, e divulgadora científica com 253 mil seguidores e 3,7 milhões de curtidas no TikTok. Ela reconhece que estava no lugar certo e no momento certo para liderar a maior onda de progresso científico da sua geração. Blakney deu até um nome a essa nova era: o “RNAscimento”.

Com a pandemia de covid-19, muitas pessoas agora conhecem — e até receberam — vacinas de mRNA, produzidas pela Pfizer-BioNTech e pela Moderna. Mas, quando Blakney iniciou seu PhD no Imperial College de Londres em 2016, “muitas pessoas duvidavam até se elas iriam funcionar”. Agora, “todo o campo de mRNA está explodindo. Ele está virando o jogo na medicina”, afirma ela.

E essa virada de jogo é tão grande que levanta enormes e empolgantes questões: poderão as vacinas de mRNA fornecer a cura do câncer, HIV, doenças tropicais e até nos dar imunidade supra-humana?

O ácido ribonucleico mensageiro — abreviado como mRNA — é uma molécula de cadeia única que conduz o código genético do DNA para o mecanismo de produção de proteínas da célula. Sem o mRNA, o seu código genético não seria utilizado, as proteínas não seriam produzidas e o seu corpo não funcionaria. Se compararmos o DNA com o cartão do banco, o mRNA seria a máquina leitora de cartões.

Quando um vírus entra nas nossas células, ele libera o seu próprio RNA, “enganando” nossas células sequestradas para que elas produzam cópias do vírus — na forma de proteínas virais — que comprometem nosso sistema imunológico. As vacinas tradicionais funcionam injetando proteínas virais desativadas, chamadas de antígenos, que estimulam o sistema imunológico do corpo a reconhecer o vírus, por exemplo, quando ele reaparece.

As vacinas de mRNA são inovadoras porque não é preciso injetar o próprio antígeno. No seu lugar, essas vacinas utilizam a sequência ou “código” genético do antígeno, traduzido em mRNA. É um “fantasma” da realidade, que engana o corpo para que crie anticorpos reais. O próprio mRNA artificial desaparece em seguida, com a ação das defesas naturais do corpo, que incluem enzimas que o decompõem, restando apenas os anticorpos.

Sua produção, portanto, é mais segura, rápida e barata, em comparação com as vacinas tradicionais. Você não precisa mais de enormes laboratórios biosseguros cultivando vírus mortais em milhões de ovos de galinha. Em seu lugar, um único laboratório pode sequenciar as proteínas do antígeno e enviá-las por e-mail para todo o mundo. Com essa informação, um laboratório pode produzir “1 milhão de doses de mRNA a partir de um único tubo de ensaio de 100 ml”, segundo Blakney.

O mundo recentemente pôde assistir ao desenvolvimento desse processo em tempo real. Em 10 de janeiro de 2020, Zhang Yongzhen, professor de zoonoses do Centro de Controle e Prevenção de Doenças em Pequim, na China, sequenciou o genoma da covid-19, que foi publicado no dia seguinte. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia de covid-19 em 11 de março. No dia 16 de março de 2020, utilizando a sequência de Zhang, foram iniciados os testes clínicos de fase 1 da primeira vacina de mRNA.

Em 11 de dezembro de 2020, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) aprovou a vacina contra a covid-19 da Pfizer-BioNTech, que entrou para a história não apenas como a primeira vacina de mRNA aprovada para seres humanos, mas também como a primeira a ter taxa de eficácia de 95% em testes clínicos.

A aprovação da vacina de mRNA da Moderna seguiu-se pouco depois, em 18 de dezembro de 2020. A vacina que detinha o recorde anterior de “mais rápida da história” — a vacina contra a caxumba — havia levado quatro anos para ser desenvolvida. As vacinas da Moderna e da Pfizer-BioNTech levaram apenas 11 meses.

A teoria por trás da vacina de mRNA foi desenvolvida pela primeira vez pelos cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, Katalin Karikó e Drew Weissman, que receberam o Prêmio Lasker 2021 — o principal prêmio de pesquisas biomédicas dos EUA.

Em 2019, acreditava-se que levaria pelo menos cinco anos para que as vacinas de mRNA chegassem ao mercado. Mas a pandemia antecipou esse campo da medicina em meia década. Kathryn Whitehead, professora de engenharia química e biomédica da Universidade Carnegie Mellon, nos EUA, e importante colaboradora de Weissman e Karikó, admite que “poucas pessoas no mundo da terapia com mRNA teriam imaginado taxas de eficácia iniciais de 95% nesse cenário de emergência”.

Mas, agora, as possibilidades parecem infinitas. Ou, segundo Blakney: “é como dizer: muito bem, agora que funcionou para uma glicoproteína viral, quais outras vacinas podemos produzir? E, além disso, o que mais podemos fazer?”

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