Quinta-feira, 22 de Outubro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 22 de outubro de 2026
Há muitas formas de ignorância e talvez uma única forma de sabedoria. Entretanto, alguns autores consideram duas formas substanciais de ignorância. Uma que refuta a busca da verdade e funciona como uma barreira, um obstáculo ao conhecimento.
A outra forma de ignorância, que é aquela que se chama “douta ignorância”. É a ignorância que funciona como o motor que movimenta, anima a busca da verdade.
Deste ponto de vista se pode dizer que o problema da ignorância não é exatamente se apropriar do conhecimento, mas antes de o fazer circular, isto é, de “dar” o conhecimento, de partilhar, ou melhor ainda, de transmitir o “amor” pelo saber.
Isso, na Grécia antiga, fazia a diferença entre o verdadeiro professor, como aquele que professava e partilhava sua fé como centelha de interesse sobre a verdade, e o sofista, que apenas tinha o interesse em “vender” algum conhecimento, como se o conhecimento fosse uma mercadoria que se pode comprar e vender, mas sem o “amor” pelo conhecimento que era e é próprio do verdadeiro filósofo.
Portanto, não se trata de “possuir” o saber, mas de dar o saber graciosamente, quer dizer, despertar no outro, no aluno ou no discípulo, e até mesmo no amigo, o desejo de saber. Por isso, a psicanálise diz que o analista ocupa o lugar do Sujeito-Suposto-Saber, e que o desejo do analisando está em “ocupar” o lugar do analista. É sobretudo uma questão de desejo.
Trata-se de “ascender” o desejo de saber e é esse desejo de saber é a única proteção, a única vacina, contra o delírio da ignorância. Delírio, porque o louco – no sentido popular – é aquele que acredita saber tudo. Mas nesse “saber-máximo”, ele não se dá conta que seu saber é mínimo, enquanto o sábio ocupa o lugar diametralmente oposto e se coloca como aquele que tem um saber-mínimo, e que justamente por ser mínimo é o único que pode ser abrir para a possibilidade de ser um saber-máximo.
Por isso, e nesse sentido, bem se pode dizer metaforicamente que a sabedoria é o oposto da loucura.
*Jorge Trindade
Psicólogo, psicoterapeuta e advogado. Doutor em psicologia clínica e doutor em ciências sociais. Ocupa a Cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Filosofia