Quinta-feira, 09 de Julho de 2026

Home Colunistas A lição norueguesa: disciplina, sustentabilidade e futuro

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Num domingo que ficará marcado na memória esportiva, o Brasil conheceu a força da Noruega de uma forma dolorosa, ao ser eliminado pela seleção escandinava na Copa do Mundo. Mas a verdadeira força desse país não vem dos gramados. Ela se revela em outro palco, menos ruidoso, mas muito mais decisivo para o futuro da humanidade: a COP30, realizada em Belém. Foi ali que a Noruega brilhou de maneira surpreendente, mostrando ao mundo que disciplina e estratégia podem ser aplicadas não apenas ao futebol, mas também à preservação do planeta.

Poucos sabem que a consciência ambiental norueguesa tem raízes profundas. Nos anos 1960, quando descobriu petróleo no Mar do Norte, o país poderia ter seguido o caminho de tantos outros produtores, mergulhando em crises fiscais e dependência excessiva dos combustíveis fósseis. Em vez disso, decidiu transformar essa riqueza em patrimônio coletivo. Criou o Government Pension Fund Global, o famoso fundo soberano, que hoje acumula mais de 2 trilhões de dólares e é considerado o maior do mundo.

Esse fundo não é apenas uma reserva financeira: ele é administrado com rigor ético e ambiental, excluindo empresas ligadas a carvão, armas nucleares ou violações de direitos humanos. Parte dos rendimentos financia serviços públicos e políticas de transição energética. Na COP30, a Noruega mostrou que sabe usar essa riqueza com inteligência. O primeiro-ministro Jonas Gahr Støre e o ministro do Clima Andreas Bjelland Eriksen anunciaram aportes bilionários em fundos de preservação florestal liderados pelo Brasil.

Foram bilhões destinados ao Tropical Forests Forever Facility, além de novos repasses ao Fundo Amazônia. Esse gesto é simbólico: um país que construiu sua prosperidade com petróleo agora investe parte dela para proteger as florestas tropicais, essenciais no combate ao aquecimento global. É como se a Noruega dissesse ao mundo que reconhece sua responsabilidade e está disposta a financiar soluções para além de suas fronteiras.

Pesquisei e busquei dados para usar a Noruega como exemplo para o Brasil, e a comparação é inevitável. Estamos perdendo de goleada fora dos campos de futebol. Enquanto a Noruega tem 89% de sua matriz elétrica baseada em hidrelétricas e já lidera em veículos elétricos, com mais de 80% das vendas novas, o Brasil ainda depende fortemente de térmicas fósseis e engatinha na mobilidade elétrica.

Enquanto os noruegueses praticam desmatamento zero e financiam preservação em outros países, nós ainda lutamos contra índices alarmantes de desmatamento na Amazônia. Enquanto eles tratam o aquecimento global como consenso nacional, aqui ainda há espaço para discursos negacionistas que enfraquecem políticas públicas. Enquanto a Noruega transformou petróleo em fundo soberano verde, o Brasil extinguiu seu fundo soberano em 2019 e não conseguiu criar um mecanismo robusto para financiar a transição energética.

Se aprendemos a respeitar a Noruega num domingo doloroso de Copa do Mundo, precisamos reconhecer que a verdadeira força desse país vem de fora dos gramados. É a força de uma sociedade que decidiu pensar no longo prazo, que usa disciplina fiscal e consciência ambiental para garantir prosperidade às futuras gerações. O Brasil tem potencial para seguir esse caminho. Temos sol, vento, água e biodiversidade em abundância. Temos capacidade de liderar a transição energética e ser protagonistas globais na luta contra o aquecimento climático. Mas falta disciplina, visão de futuro e coragem política para transformar riqueza natural em patrimônio coletivo.

A Noruega nos mostra que sustentabilidade não é ideologia, é estratégia. Não é custo, é investimento. Não é utopia, é pragmatismo. Enquanto continuarmos tratando o tema como disputa política ou como farsa, estaremos perdendo não apenas para a Noruega, mas para o futuro. A verdadeira vitória não está em levantar taças, mas em garantir que nossos filhos e netos herdem um planeta habitável. E nesse campeonato, a Noruega já está muito à frente.

– Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética. (Contato: rena.zimm@gmail.com)

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