Domingo, 17 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 17 de maio de 2026
O mar ensina coisas que a cidade esqueceu. Ensina que ninguém controla o vento. Que existem dias de abundância e dias de tempestade. Que o homem mais forte também depende do invisível. E que a vida… a vida pode mudar de direção em segundos.
Estive em Tramandaí, litoral do Rio Grande do Sul, em um evento organizado por um querido amigo. Uma competição de tarrafas. E o que era para ser “apenas” um torneio virou um encontro carregado de significado.
Ali, estava reunida a comunidade de tarrafeiros. Pescadores. Gente trabalhadora. Gente que acorda cedo. Gente que construiu a vida puxando rede, enfrentando frio, chuva e incerteza.
Mas, desta vez, havia algo diferente no ar.
Uma tristeza coletiva. Um silêncio emocionado entre os abraços.
Há poucas semanas, a comunidade perdeu um dos seus grandes líderes, o Big Lu. Um homem que saiu da vila, cresceu através do trabalho e se tornou referência não apenas pelo sucesso nos negócios, mas pela forma como estendia a mão aos outros. Daqueles homens que parecem maiores do que eles mesmos porque viram símbolo de força, proteção e presença.
Ele ajudava a organizar aquele evento.
Mas não chegou a vê-lo acontecer.
Morreu em um acidente de carro.
Um dia, cheio de vida. No outro, ausência.
E é justamente isso que mais nos desmonta diante da morte: a brutalidade da interrupção. A vida não avisa. Não prepara. Não pergunta se estamos prontos. Ela apenas…se vai.
De repente, alguém sai de casa sem imaginar que aquele abraço seria o último. Sem saber que existe uma última conversa, um último almoço em família, uma última mensagem não respondida, um último “depois a gente se fala”.
E nós vivemos como se o tempo fosse infinito. Adiamos demonstrações de amor. Economizamos presença. Guardamos palavras bonitas para momentos especiais, sem perceber que especial mesmo é ainda ter tempo.
Pior: brigamos ou nos afastamos ou sofremos por tão pouco!…
E foi assim que vivi um dos momentos mais emocionantes da minha trajetória pública. Fui convidada para representar as mulheres do nosso Estado em uma homenagem à Jéssica — viúva, mãe e empresária — como um gesto de reconhecimento e apoio à enorme responsabilidade que, agora, repousa sobre os seus ombros. Será um enorme desafio, pois ela não carrega apenas a dor da perda do marido. Ela carrega, também, a missão de permanecer forte pelos filhos, de seguir conduzindo os negócios construídos ao lado dele e, de certa forma, de acolher uma comunidade inteira que perdeu um líder profundamente amado.
Enquanto eu olhava para ela, pensei na força silenciosa das mulheres. Naquelas que seguem em pé mesmo quando a alma pede colo. Naquelas que choram no banho para sorrir diante dos filhos. Naquelas que transformam amor em coragem porque simplesmente não têm a opção de desistir.
Então, um dos irmãos disse algo que ficou ecoando dentro de mim:
“Abracem quem vocês amam. Porque a gente não sabe o que pode acontecer.”
É simples. Quase óbvio. Mas vivemos como se não fosse. Eu sei, encarar a finitude assusta. Admitir que somos passageiros nos obriga a reorganizar prioridades. A perceber que muito do que nos consome diariamente perderia completamente a importância diante da notícia de que alguém que amamos não volta mais para casa.
A morte tem esse poder brutal de colocar a vida em perspectiva.
Portanto, acredite: o grande desafio não é viver para sempre, mas, sim, viver de verdade enquanto estamos aqui.
Amar sem vergonha.
Pedir desculpas sem orgulho.
Estar presente sem distração.
Construir memórias antes que elas sejam tudo o que reste.
No fim, quando o silêncio chega (e ele é inevitável), ninguém pergunta quantos boletos você pagou, quantos seguidores tinha ou quantas reuniões marcou.
O que fica é o amor que fomos capazes de entregar. O bem que deixamos nas pessoas.
E os abraços que tivemos coragem de dar enquanto ainda havia tempo.
“A vida vem em ondas como o mar”, já dizia Lulu. E, assim como vem, também se vai…
Instagram: @ali.klemt