Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 9 de agosto de 2026
A Polícia Federal (PF) tornou-se o Grande Eleitor da disputa presidencial deste ano. São as investigações da PF nos escândalos que se multiplicam ao redor dos dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, que têm o potencial de decidir quem vai presidir o País a partir de 2027. A campanha parece ter sido definitivamente capturada pelo noticiário policial, tornando secundário, quando não inexistente, o debate sobre os grandes problemas nacionais. Lula e Flávio ensaiam um pas de deux na lama, para tédio da plateia.
A mais nova frente de investigação da PF envolve um velho conhecido do anedotário lulopetista, o notório Fábio Luís Lula da Silva, vulgo “Lulinha”, e um estreante dos escândalos da turma do PT, Marco Aurélio Santana Ribeiro, vulgo “Marcola”. Aqui, nada cheira bem: um é filho do presidente, o outro era o assessor mais próximo de Lula, e ambos são suspeitos de facilitar a vida de uma lobista, a empresária Roberta Luchsinger, que tinha entre seus clientes o empresário e também lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, vulgo “Careca do INSS”, suspeito de ser o pivô do esquema que resultou no roubo do dinheiro de milhões de aposentados.
Até então, Lula estava refestelado na poltrona assistindo à desgraça de seu adversário, às voltas com o escândalo do Banco Master, igualmente investigado pela PF. Pilhado pedindo milhões de dólares ao banqueiro delinquente Daniel Vorcaro, com o qual jurava que não tinha relação, Flávio Bolsonaro mentiu para o próprio partido, enrolou-se nas explicações e ofendeu a inteligência alheia, o que lhe custou pontos preciosos nas pesquisas de intenção de voto.
Agora, porém, o caso envolvendo “Lulinha”, “Marcola” e “Careca do INSS” deu a Flávio a chance de tentar igualar o jogo. Como não consegue conquistar votos além da seita bolsonarista porque não tem nada a oferecer ao País a não ser o sobrenome que recebeu do pai, preso por tentativa de golpe, Flávio parece disposto a aproveitar o momento para investir na transformação definitiva da campanha eleitoral numa disputa sobre quem é mais emporcalhado. Tanto é assim que escolheu como companheiro de chapa o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), cuja única importância foi ter sido justamente relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou os desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Nessa condição, Gaspar trabalhou com afinco para vincular o escândalo ao governo Lula e a “Lulinha”. Não foi lá muito bem-sucedido, porque seu relatório final foi rejeitado. Mas, para o bolsonarismo, isso não importa: sua missão na campanha não será a de defender propostas, dado que são inexistentes, mas a de carimbar o caso do INSS na candidatura de Lula.
Tudo isso pode excitar um eleitorado até aqui apático e desinteressado da eleição, mas certamente não resultará em uma disputa relevante de ideias e de propostas. É evidente que a integridade moral dos candidatos é um requisito indispensável para quem se dispõe a governar o Brasil, mas a eleição não pode se limitar a isso. Temos de saber o que os candidatos têm a propor para enfrentar questões relevantes e prementes, como o alto endividamento público, a asfixia financeira das famílias e dos empresários, a baixíssima produtividade, as imensas carências da educação pública, o papel do Brasil num mundo em grande transformação tecnológica e geopolítica e as mudanças drásticas no comércio internacional.
O próximo presidente, portanto, não pode ser apenas aquele que, no cotejo dos escândalos, tenha se saído menos mal. Contudo, tendo em vista que Lula não tem nada de novo a oferecer ao Brasil, depois de tantos anos de governos medíocres, e que Flávio Bolsonaro é declaradamente um figurante na sua própria campanha, sem ter a mais remota ideia do que fazer caso se torne presidente, teremos pela frente uma das campanhas eleitorais mais sofríveis da história brasileira. (Coluna de opinião do portal Estadão).