Sexta-feira, 31 de Julho de 2026

Home Colunistas A responsabilidade por trás da escolha do vice

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Os partidos políticos encontram-se em pleno processo de definição das chapas que disputarão as próximas eleições. As convenções partidárias, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, devem escolher os candidatos aos cargos de presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Depois disso, os pedidos de registro das candidaturas deverão ser apresentados à Justiça Eleitoral até 15 de agosto.

Entre as principais pendências das legendas está, justamente, a escolha dos candidatos a vice. Embora esses nomes geralmente recebam menos atenção do eleitorado e da imprensa, não se trata de uma posição meramente decorativa ou protocolar. O vice é eleito juntamente com o titular e tem a responsabilidade constitucional de substituí-lo temporariamente em seus impedimentos ou de assumir definitivamente o governo em caso de vacância.

Durante muitos anos, a figura do vice foi tratada com certo desprezo e até transformada em motivo de sátira. O genial Jô Soares, por exemplo, popularizou o humor em torno da suposta falta de importância do cargo. Na prática, porém, a história demonstra que o vice pode deixar, repentinamente, a condição de coadjuvante para assumir o comando de uma prefeitura, de um estado ou até mesmo do País.

Certa vez, um amigo nosso foi convidado para ser candidato a vice-prefeito na chapa de um oposicionista que pretendia desafiar os tradicionais grupos políticos de sua cidade. Ele recusou o convite porque havia acabado de conquistar um bom emprego em uma grande empresa, oportunidade que buscara durante anos.

O candidato desafiante venceu as eleições e assumiu a prefeitura. Pouco tempo depois, entretanto, foi acometido por uma grave doença que, em poucos meses, o levou à morte. O governo municipal ficou, então, sob a responsabilidade daquele que havia aceitado ocupar a vaga de vice. Depois de concluir o mandato do titular falecido, o substituto ainda conseguiu construir sua própria trajetória política.

Nosso amigo sempre afirmou que não sentiu inveja de quem assumiu o lugar que ele recusara. Aos mais próximos, porém, confessou certa insatisfação — e até mesmo um sentimento de culpa — ao acompanhar os erros políticos e administrativos cometidos pelo novo prefeito. A situação comprova que uma decisão aparentemente secundária pode produzir consequências profundas para toda a população.

Por esse motivo, os eleitores devem prestar a devida atenção ao vice que integra a chapa de seu candidato. Em caso de vacância, essa pessoa deverá estar verdadeiramente preparada para governar. Caso contrário, a substituição poderá provocar uma crise política, administrativa e institucional de consequências imensuráveis. Não basta analisar apenas o nome que aparece como protagonista da campanha: ao votar no titular, o eleitor também concede ao vice a possibilidade concreta de assumir o poder.

Da mesma forma, os partidos precisam abandonar a prática de escolher candidatos a vice apenas para acomodar interesses partidários, formar alianças regionais, ampliar o tempo de propaganda ou equilibrar grupos políticos. O cargo deve ser ocupado por alguém com competência técnica, experiência administrativa, equilíbrio, capacidade de diálogo e compromisso com a Constituição.

Nesse processo, os partidos também deveriam investir mais na escolha de mulheres verdadeiramente preparadas para ocupar a vice-presidência e as vice-governadorias. A elevada qualificação demonstrada pelas mulheres nos mais diversos setores da sociedade pode fazer uma diferença significativa tanto na composição das chapas quanto na condução de um eventual governo. Essa participação, contudo, não deve ocorrer apenas para cumprir formalidades ou produzir uma imagem eleitoralmente conveniente. É necessário oferecer espaço efetivo a mulheres capazes de participar das decisões e, se necessário, assumir plenamente o comando.

A importância do vice já foi comprovada diversas vezes pela história brasileira. Itamar Franco assumiu a Presidência após o afastamento de Fernando Collor, enquanto Michel Temer substituiu Dilma Rousseff depois do processo de impeachment. João Goulart, por sua vez, chegou ao poder após a renúncia de Jânio Quadros e governou durante um período de intensa instabilidade política, encerrado pela ruptura institucional de 1964.

Esses episódios demonstram que a escolha do vice pode influenciar diretamente os rumos do País. Em determinadas circunstâncias, aquele que parecia destinado a permanecer distante das decisões passa a ocupar o posto mais importante da República.

As eleições deste ano renovarão os mandatos de presidente da República, dos governadores dos estados e do Distrito Federal, de dois terços do Senado, além da totalidade da Câmara dos Deputados e das assembleias legislativas estaduais e distrital. Trata-se, portanto, de um momento decisivo para a vida política nacional.

Tão importante quanto renovar os mandatos é garantir o respeito à legislação, à Constituição e às atribuições de cada um dos Três Poderes. A sociedade espera que o processo eleitoral seja conduzido com transparência, segurança e lisura, de maneira que os resultados expressem legitimamente a vontade popular e não deixem espaço para dúvidas ou contestações sem fundamento.

Aos que estão sendo convidados a ocupar uma candidatura a vice, recomenda-se profunda reflexão. A oportunidade pode não aparecer novamente, mas aceitá-la exige consciência sobre a responsabilidade envolvida. Não se trata apenas de ocupar um lugar na fotografia da campanha ou de aguardar uma eventualidade. Trata-se de estar pronto para governar.

A escolha do vice, portanto, é tão importante quanto a definição do próprio titular. Os partidos precisam apresentar nomes qualificados, os candidatos devem explicar claramente os critérios utilizados nessa escolha, e os eleitores devem examinar toda a chapa antes de votar. O vice pode parecer apenas uma figura de expectativa, mas a experiência ensina que, a qualquer momento, poderá ser chamado a decidir os destinos da cidade, do estado ou da Nação.

* Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo)

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