Segunda-feira, 01 de Junho de 2026

Home Colunistas Antes dos memes e da internet, havia as microtribos

Compartilhe esta notícia:

Nos anos 80, antes de alguém viralizar uma frase para milhões de pessoas, existia algo muito mais raro… As microtribos.

Mas é preciso explicar. Não estou falando das gírias de uma geração inteira. Nem das linguagens de grandes tribos urbanas como surfistas, punks, góticos ou skatistas.

Estou falando daqueles pequenos grupos de amigos que conviviam tanto que acabavam criando um idioma próprio. Essa crônica é para aquela galera do tempo em que Wi-Fi era suco de laranja com vodka: Hi-Fi.

Havia uma linguagem secreta. Uma coleção de piadas internas que só fazia sentido para quem estava lá. Vou começar por uma delas: “esquilar”.

A cena era clássica. Você comprava um pastel ou um xis e logo aparecia alguém:

— Me dá uma mordida?

Antes que o amigo avançasse sobre o lanche, o proprietário dava uma lambida estratégica na volta inteira do pastel. Depois, estendia com a maior cara de pau e tranquilidade:

— Agora pode pegar.

Ninguém queria mais. Na nossa turma, isso era “esquilar”. O nome vinha dos desenhos antigos, em que os esquilos escondiam suas nozes como se fossem o maior tesouro da Terra, muito antes do desenho daquele esquilo aloprado da era do gelo.

Quem não dividia o lanche estava “esquilando”. Quem não emprestava a camiseta estava “esquilando”. Quem escondia dinheiro para não participar da vaquinha do refrigerante estava “esquilando”. Era um diagnóstico social.

Mas as microtribos não criavam apenas expressões divertidas. Criavam personagens. Como o famoso “Zagueiro Emocional da Perseguida”.

Fiz uma pequena adaptação no nome original para esta publicação, porque ainda pretendo continuar escrevendo neste jornal.

Todo homem sabe quem é essa figura. É aquele sujeito que vive ao lado da mulher mais bonita da roda. Ele não namora. Não fica. Não demonstra interesse.

Mas também não deixa ninguém chegar perto do gol. Bloqueia aproximações. Intercepta conversas. Fecha espaços. Ele não faz o gol. Mas também não deixa ninguém chutar. Um verdadeiro zagueiro emocional…

Outro personagem era o “Kid Rapadura”. Inspirado em um dos nossos melhores amigos. Darci Junior (O Alemão).

Parceiro de praia, de aventuras e de juventude. Quando ele se mudou para o Nordeste, a turma misturou duas referências: a tradicional rapadura e a firmeza típica dos descendentes de colonos alemães. Nasceu o “Kid Rapadura”.

A imagem era simples e genial. Um super-herói arremessando rapaduras gigantes na cabeça das pessoas. Com o tempo, qualquer grosseria virou comportamento de rapadura.

— Sai pra lá, seu rapadura!

E todo mundo entendia… Mas talvez nenhuma expressão tenha envelhecido tão bem quanto o “Amigo Calcinha”.

E não. Não confunda com o zagueiro. São espécies completamente diferentes. O “Amigo Calcinha” é aquele homem que gosta genuinamente da companhia feminina. Reconhece que a amiga é bonita. Mas não tem segundas intenções.

Funciona quase como um tradutor entre os universos masculino e feminino. Às vezes, é ele quem alerta:

— Aquele ali é problema.

“Estou te falando porque conheço o modelo. Já fui um deles.”

Muitas mulheres descobrem que um bom “Amigo Calcinha” pode ser mais leal do que muita gente que aparece apenas nas fotos.

Hoje a internet cria memes. Na nossa época, as microtribos criavam folclore. Transformavam comportamentos em personagens.

Criavam palavras sem sentido para o resto do mundo, mas carregadas de significado para quem viveu aquelas histórias.

Talvez elas ainda existam. Talvez apenas tenham migrado para grupos de WhatsApp, Discord ou redes sociais.

Mas duvido que tenham perdido completamente a magia. Porque nenhuma inteligência artificial, nenhum algoritmo e nenhuma rede social conseguiram substituir uma boa piada interna.

Daquelas que fazem cinco pessoas rirem enquanto o resto da sala não entende absolutamente nada.

E agora eu deixo um desafio para você. Feche os olhos por alguns segundos. Volte para sua adolescência e lembre daquela turma inseparável. Daquele grupo que parecia uma família improvisada.

E tente responder: Qual era a gíria da sua microtribo? Qual era aquela expressão que só vocês entendiam?

Tenho certeza de que, neste exato momento, alguém acabou de sorrir sozinho ao lembrar…

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

A nova presidência do TSE e o peso de conduzir a democracia brasileira
Os homens de ouro de Platão
Deixe seu comentário
Baixe o app da RÁDIO Pampa App Store Google Play
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa Debate Show