Segunda-feira, 01 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 1 de junho de 2026
Outro dia, voltei a folhear A República, de Platão. Não por obrigação acadêmica, nem para procurar respostas para algum problema jurídico. Foi uma daquelas releituras que fazemos por curiosidade, quase ao acaso, para reencontrar ideias que nos acompanharam durante a vida.
Em determinado momento, deparei-me novamente com o chamado mito dos metais. E confesso que fiquei pensando nele por mais tempo do que imaginava.
Platão dizia que alguns homens carregariam em sua alma o ouro, outros a prata, outros o bronze ou o ferro. Não se tratava de riqueza nem de posição social. Era uma forma de explicar as virtudes necessárias para cada função dentro da cidade.
Os governantes, dizia ele, deveriam possuir uma alma de ouro. Mas o que mais me chamou a atenção não foi a classificação em si. Foi o metal escolhido.
O ouro tem algo de fascinante. Desde a Antiguidade, homens atravessam desertos, escavam montanhas e revolvem rios à sua procura. E não apenas porque vale dinheiro. O ouro parece desafiar o tempo. Pode passar décadas enterrado. Pode ser encontrado no fundo de um rio coberto por barro. Pode permanecer séculos dentro de um navio naufragado. Quando reaparece, continua sendo ouro.
A lama o esconde. Não o transforma. Talvez tenha sido exatamente isso que Platão quis dizer. A virtude não consiste em viver longe das tentações. Consiste em atravessá-las sem perder aquilo que se é.
Pensei nisso enquanto acompanhava as notícias das últimas semanas. Os fatos envolvendo o Banco Master, as investigações, os nomes que surgem aqui e ali, os esclarecimentos, as negativas, as versões contraditórias. Nada disso é novidade para quem acompanha a vida pública brasileira há algum tempo.
Aliás, talvez seja justamente essa a parte mais preocupante. Já não nos surpreendemos. Escândalos aparecem, desaparecem e são substituídos por outros. Mudam os governos, mudam os partidos, mudam os personagens. O roteiro, quase sempre, parece familiar.
E, então, a velha pergunta de Platão retorna. O que acontece com as pessoas quando elas chegam perto do poder?
Não falo apenas de dinheiro. Falo de influência. De acesso. Da capacidade de abrir portas que permanecem fechadas para a maioria dos cidadãos. Falo daquele ambiente onde todos parecem conhecer todos, onde interesses públicos e privados frequentemente circulam pelos mesmos corredores.
É curioso porque as eleições costumam ser períodos de abundância moral. Nessa época, quase todos os candidatos falam em ética, transparência, responsabilidade e compromisso com a população. E muitos o fazem sinceramente. Não tenho dúvida disso.
Mas a história ensina que o verdadeiro teste não acontece durante a campanha. Acontece depois. Acontece quando o gabinete é ocupado. Quando os telefones começam a tocar. Quando surgem os pedidos, os convites, as pressões, os favores, os compromissos informais. Quando aparece a oportunidade de confundir interesse público com conveniência pessoal.
É nesse momento que descobrimos se havia ouro ou apenas brilho. Porque há uma diferença. O brilho pode ser fabricado. O marketing produz brilho. Os discursos produzem brilho. As redes sociais produzem brilho.
O ouro, não. O ouro continua sendo ouro quando ninguém está olhando. Talvez por isso as sociedades livres dependam tanto de instituições fortes. Leis, tribunais, órgãos de controle, imprensa independente. Tudo isso é indispensável. Mas seria ingenuidade acreditar que as instituições, sozinhas, resolvem todos os problemas.
Nenhuma democracia funciona apenas com mecanismos de controle. Em algum momento ela também depende do caráter daqueles que exercem o poder.
E, talvez, aí esteja a parte mais difícil da política. Não é escolher os mais inteligentes. Nem os mais eloquentes. Nem mesmo os mais preparados tecnicamente. É identificar aqueles que continuarão sendo a mesma pessoa depois que o poder lhes oferecer todas as razões para mudar.
Daqui a alguns meses, o país começará novamente a discutir candidaturas, alianças, pesquisas e promessas. É natural que seja assim.
Mas talvez valha a pena reservar alguns minutos para uma pergunta muito mais antiga do que qualquer eleição brasileira.
Quem são os homens e mulheres de ouro? Não aqueles que parecem dourados sob as luzes da campanha. Mas aqueles que, depois da lama, continuam sendo exatamente aquilo que eram antes dela.
* Amílcar Fagundes Freitas Macedo – amilcar-macedo@tjmrs.jus.br
Voltar Todas de Amilcar Macedo