Sábado, 30 de Maio de 2026

Home Notícias Atendimentos por endometriose quase triplicam no SUS e expõem lacuna no cuidado em saúde mental

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Estima-se que a endometriose afete cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Ela ocorre quando o tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, podendo provocar cólicas incapacitantes, fadiga crônica, dor durante a relação sexual e infertilidade. Apesar da alta frequência na população, muitas pacientes ainda passam anos tentando provar que ela existe.

Dados obtidos com o Ministério da Saúde apontam que o diagnóstico pode demorar entre 8 a 12 anos desde o início dos sintomas. Os atendimentos ambulatoriais relacionados à doença aumentaram de 26,7 mil em 2021 para 75,3 mil em 2025, alta de 181,6%. No mesmo período, as internações subiram de 8,4 mil para 22,2 mil, aumento de 162,4%. Somados, os registros ambulatoriais e hospitalares quase triplicaram em cinco anos, passando de 35,2 mil para 97,5 mil.

Os números não significam necessariamente que a doença tenha aumentado na mesma proporção. Segundo o Ministério da Saúde, a alta tem caráter multifatorial e está relacionada à ampliação da conscientização da população, à melhoria na identificação da doença e ao aprimoramento dos registros pelos profissionais de saúde. Ainda assim, os dados indicam que mais mulheres estão chegando aos serviços de saúde com sintomas ou complicações associados à endometriose.

Algumas pacientes passam por até cinco ginecologistas antes de descobrir a doença, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose, Sérgio Podgaec. Para ele, a demora no diagnóstico está ligada a dois fatores principais: a cultura que normaliza dores intensas e a dificuldade de reconhecer e investigar sintomas persistentes. “Não é normal sentir cólica de determinada intensidade. É muito importante que a paciente relate esse sintoma e que o médico o valorize e investigue uma possível causa.”

Quando essa resposta demora, a espera deixa marcas. A psicóloga Lilian Donatti, doutora em Ciências Médicas pela USP, afirma que o atraso no diagnóstico da endometriose “não afeta apenas o corpo, mas profundamente a saúde mental”. Segundo ela, quando a mulher passa anos sem ser ouvida, sem ter uma explicação para a sua dor, desenvolve-se o que se chama de “duplo sofrimento”: a dor física somada à dor emocional de não ser acreditada.

Sofrimento psíquico

O impacto na saúde mental ainda é uma das dimensões menos visíveis da endometriose — embora esteja entre as mais frequentes. Em um estudo publicado na revista Einstein, Lilian Donatti identificou que mais da metade das mulheres com a doença apresentam algum nível de depressão. Entre aquelas com dor severa, o índice chega a 91%. Para Donatti, esse sofrimento é agravado pelos anos convivendo com a dor sem resposta e sem acesso ao cuidado adequado.

Especialistas ouvidos pela reportagem do ND+ afirmam que a relação entre endometriose e depressão vai além, e que há evidências de que dor persistente e inflamação associadas à doença podem afetar alguns circuitos cerebrais. De acordo com o médico especialista em endometriose Esdras Camargos, a inflamação produz citocinas capazes de alterar o funcionamento de neurotransmissores, como serotonina e dopamina, responsáveis por regular o humor, a motivação, o prazer e o bem-estar.

Ao longo dos anos, essas alterações podem mudar a forma como o cérebro processa os estímulos dolorosos — fenômeno conhecido como sensibilização do sistema nervoso central. “Os impulsos dolorosos se repetem tantas vezes que o cérebro passa a responder de forma amplificada, aumentando aquele sofrimento”, explica Camargo. Nesse processo, a doença deixa de atingir apenas a região pélvica e passa a alimentar um ciclo persistente de dor, fadiga, ansiedade e depressão.

O problema é que esse sofrimento também pode retroalimentar a própria doença. Donatti afirma que o estresse contínuo, a ansiedade e a depressão ajudam a amplificar os circuitos cerebrais da dor, podendo intensificar processos inflamatórios do organismo. “Os pensamentos amplificam os circuitos neurobiológicos de dor, criando um ciclo de retroalimentação”, explica.

Estudos recentes dão escala a essa associação entre endometriose e transtornos mentais. Em 2023, uma pesquisa publicada no JAMA Network Open, com 8,2 mil mulheres com endometriose e 194 mil controles, mostrou que pacientes com a doença apresentaram 3,6 vezes mais chance de depressão, 2,6 vezes mais chance de ansiedade e 2,9 vezes mais chance de transtornos alimentares, mesmo após ajustes para dor crônica e outras comorbidades.

Já um estudo de 2024 no Journal of Affective Disorders, com mais de 12 milhões de mulheres hospitalizadas, encontrou a maior associação com ansiedade entre aquelas que conviviam com endometriose e dor crônica ao mesmo tempo: 2,7 vezes mais chance. Os achados não provam uma causa única, mas reforçam que dor, corpo e saúde mental precisam ser tratados de forma integrada.

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