Sábado, 02 de Março de 2024

Home em foco Aumento do narcotráfico leva o Equador a ter taxa “brasileira” de homicídios

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No mês passado, um ataque com armas de fogo e explosivos, descrito pelas autoridades como uma “declaração de guerra ao Estado” do crime organizado, deixou cinco mortos e 20 feridos em Guayaquil, a maior cidade do Equador. Um tipo de violência que era rara e agora é cada vez mais corriqueira no país, que se tornou nos últimos dois anos o terceiro do mundo em volume de apreensões de cocaína. Segundo a imprensa local, foram pelo menos 145 ataques com explosivos entre janeiro e meados de agosto de 2022, metade deles na cidade litorânea.

Analistas apontam três fatores cruciais para o aumento da violência no país: o desmonte de importantes estruturas de segurança a partir de 2017; a crise econômica que se agravou na pandemia; e a reconfiguração das rotas de narcotráfico na região, que colocou o Equador como um dos protagonistas no refino de drogas. Além disso, a dolarização da economia, adotada em 2000, juntamente com os fracos controles financeiros, tornaram o país um local ideal para a lavagem de dinheiro do tráfico.

Do ponto de vista político, o desmonte de áreas estratégicas no combate à violência explica em parte o aumento sem precedentes das taxas de homicídio no Equador, que passaram de 5,6 por 100 mil habitantes em 2017, ano em que o ex-presidente Lenín Moreno tomou posse, para 20 homicídios por 100 mil habitantes este ano. Isso aproxima o país do Brasil, que, com uma taxa de homicídios de 22,3 por 100 mil habitantes em 2021, é o segundo país mais violento da América do Sul, depois da Venezuela (taxa de 40,9 por 100 mil em 2021, segundo o Observatório Venezuelano da Violência).

Recomendação 

Em seu governo, seguindo as recomendações de um acordo firmado com o Fundo Monetário Internacional (FMI), Moreno promoveu medidas que levaram a um processo sistemático de redução da burocracia estatal, com o corte de mais de 35 mil funcionários públicos, incluindo na área de segurança — o corte no sistema penitenciário foi de 30%.

Também foram extintos vários ministérios estratégicos como o da Justiça, criado no governo de Rafael Correa, e o de Segurança e do Interior, além do Conselho Nacional de Controle de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas. Todos foram reunidos em um único ministério, o de Governo.

“Nos últimos cinco anos, Exército e polícia foram sofrendo cortes, e hoje os novos cadetes não têm sequer dinheiro para treinamento. Isso gerou a perda do controle territorial por parte do Estado”, explica Milton Reyes, professor do Instituto de Altos Estudos Nacionais e da PUC do Equador. “Houve um grave problema de gestão tecnocrática na economia, com perda de investimentos de talento humano e da própria força de segurança. Com isso, indicadores em temas sociais baixaram muito e pioraram ainda mais com a pandemia e com a crise econômica.”

Em uma carta aberta endereçada ao atual presidente Guillermo Lasso, a prefeita de Guayaquil, Cynthia Viteri, disse que “as gangues criminosas se tornaram um governo dentro de outro governo”. Desde o ano passado Lasso, com baixa popularidade e frágil politicamente depois de uma onda de protestos sociais no ano passado, vem reagindo à onda de violência com uma série de decretos de estados de exceção, medida que tem um alcance apenas pontual.

“Os estados de exceção não funcionaram na prática. Há uma visão pouco estratégica do problema”, afirma o cientista político Franklin Ramírez. “Na semana passada, após uma série de ataques com carro-bomba, Lasso tentou se mostrar como um líder forte, uma espécie de ‘bukelização’ de sua imagem [uma referência ao presidente de El Salvador Nayib Bukele, que empreende uma guerra às drogas violenta em seu país]. Ele tenta mostrar que está no controle após anos de desinteresse. Ensaia assim a adoção de uma via violenta, mas sem uma mudança estrutural séria.”

Massacres 

Nesse cenário de expansão de grupos criminosos ligados ao narcotráfico, a repressão vem aumentando e a superlotação nas prisões explodiu. De acordo com as autoridades locais, cerca de 11 mil dos atuais 32 mil presos no país — uma ligeira diminuição em relação a 2021 devido a um programa de libertação antecipada adotado por Lasso — pertencem a um grupo criminoso.

A maior e mais complexa prisão do Equador, conhecida como La Peni, em Guayaquil, tem mais de 10 mil presos distribuídos por 12 pavilhões. Cada um supostamente sob o controle de uma organização criminosa diferente.

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