Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026

Home Economia Banco Central não vai ceder às pressões e continuará apontando risco fiscal

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Chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), José Júlio Senna avalia que o Banco Central (BC) não vai ceder à pressão do governo e deixar de apontar o risco fiscal após o anúncio do pacote de ajuste do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para reverter o rombo das contas públicas.

“Esse é um campo perfeito para frustração (do governo). O BC não vai vacilar. A taxa de juros sendo mantida em 13,75%, o BC vai continuar apontando para o risco fiscal e dizendo que tem disposição para subir os juros, se precisar”, diz o economista, que foi diretor do BC e acompanha com lupa a política monetária do Brasil e do exterior.

Senna sugere que, para afastar a contaminação das expectativas, o ideal seria o governo se convencer de que não é recomendável mudar a meta de inflação e antecipar essa decisão.

A seguir, leia a entrevista com o economista.

1) O que está por trás da fala do presidente Lula ao sugerir uma meta de inflação mais alta, enquanto Haddad fala em harmonização da política fiscal e monetária, sem dizer com todas as letras o que quer com isso?

Não faz sentido falar de metas sem situar a discussão macroeconômica. O ministro Haddad tomou posse falando da necessidade de coordenação de política fiscal e monetária. Há uma falta de coordenação. A política fiscal é expansionista e a monetária apertada, contracionista. Haddad sabe disso e já fez o registro. Pouco depois, ele anunciou um plano de ajuste fiscal. Seria a contribuição para o início dessa coordenação. Eu diria que ainda falta atuar em cima de gastos, da definição do arcabouço fiscal. Eles estão falando de reforma tributária, que seria um grande avanço, mas é mais do ponto de vista de sinalização, porque o resultado dela não é imediato.

2) Ao falar de harmonização, o ministro não pode estar cobrando do BC uma visão menos dura em relação ao risco fiscal?

É isso sim. É preciso manter as aparências. Ele está querendo organizar a discussão, o debate. Para manter isso, o governo precisa sinalizar que está fazendo a sua parte, tomando os primeiros passos. Mas precisa de disposição mais firme para controlar gastos. As medidas anunciadas são calcadas em aumento de receita. Algumas delas são “viagem”, não vão conseguir o que imaginam. A parte de gastos prevista no pacote está exagerada; dificilmente conseguirão os R$ 50 bilhões de corte de despesas. Falta o arcabouço fiscal de longo prazo. Como supostamente eles entendem que deram o primeiro passo para a coordenação da política fiscal com a monetária, provavelmente imaginam que o BC possa dar uma ajuda.

3) O que seria essa ajuda?

Um sinal de boa vontade. Não é reduzir a Selic, que não tem cabimento; mas um sinal na comunicação. Mas não vai acontecer. Esse é um campo perfeito para frustração (do governo). O BC não vai vacilar. A taxa de juros vai ser mantida em 13,75% e o BC vai continuar apontando para o risco fiscal e dizendo que tem disposição para subir os juros, se precisar.

4) Por que essa manifestação não virá na ata do Copom? O BC não vai diminuir o risco fiscal?

A política monetária é feita de olho nas projeções de inflação e no balanço de riscos. Na última reunião, o BC ficou a um milímetro de dizer que o principal componente de risco é a questão fiscal. Se ele dissesse isso com todas as letras, precisaria dizer que o risco virou assimétrico – ou seja, a probabilidade de subir é maior do que cair, comparativamente às projeções oficiais de inflação. Do jeito que está, o risco é simétrico: a inflação tanto pode subir como cair. Ele está deixando assim, mas escreveu: prestarei especial atenção à questão fiscal. Se ele carregasse um pouco mais nas tintas, poderia parecer provocação ao governo. O BC vai evitar fazer isso, mas continuará dando destaque ao risco fiscal.

5) Há um incômodo de Haddad em relação aos juros altos num quadro de forte desaceleração da atividade econômica, que joga pressão para o presidente do BC. Como avalia essa pressão?

Tem uma pressão fortíssima sobre o BC. A pressão está lá. Vemos no dia a dia, na imprensa, toda hora aparece. O próprio Haddad já disse que a inflação é mais baixa do que em vários países desenvolvidos e que o juro real é o mais alto do mundo. Como eles têm pressa, os juros reais são um obstáculo.

6) Lula também criticou a autonomia do BC.

Lula deveria agradecer pela autonomia. Se não fosse a aprovação dela, ele iria herdar uma situação muito pior. Ninguém tem dúvida de que, do jeito que Bolsonaro se virou para ser reeleito, ele iria avançar no BC do jeito que avançou nos Estados, na Petrobras. E não teríamos hoje a inflação perto de 6%; teríamos um quadro muito pior. Lula não deveria se revoltar.

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