Quinta-feira, 23 de Julho de 2026

Home Economia Brasil despenca em ranking de produção industrial; entenda crise do setor mais afetado pelo tarifaço

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A indústria de transformação do Brasil, o segmento mais afetado pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos, já atravessa um processo de desindustrialização que se arrasta há décadas. Na avaliação de especialistas, os juros altos se somam a problemas estruturais e fazem o país perder espaço no ranking mundial.

Levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), com base em dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), mostra que o Brasil ocupou a 69ª posição em um ranking de 90 países no primeiro trimestre deste ano, ficando entre o terço com pior desempenho. No período, a produção da indústria de transformação brasileira teve recuo de 0,1%.

Apesar de ter melhorado em relação à 80ª colocação do quarto trimestre de 2025, o Brasil teve uma queda significativa nos dois últimos anos. O país passou do 33º lugar no primeiro trimestre de 2024, quando o setor cresceu 1,7%, para o 47º no mesmo período de 2025, apesar da alta de 2,5%, até chegar à atual 69ª posição.

Para o professor de Macroeconomia do Ibmec-SP, Renato Veloni, a queda no desempenho da indústria de transformação reflete, em parte, uma taxa de juros de 14,25% ao ano.

“Depois dos insumos, os juros representam um dos maiores custos para a indústria de transformação, que depende de investimentos de longo prazo. O ciclo longo de juros elevados reduz a competitividade das empresas.”

PIB

A cotação do dólar, diz Veloni, também afeta a competitividade da indústria: quando o real está valorizado, fica mais barato importar produtos, aumentando a concorrência com a indústria nacional. Quando o câmbio se desvaloriza, os importados ficam mais caros, e a produção doméstica ganha competitividade.

Para o professor, o novo tarifaço americano não deve alterar significativamente as perspectivas da indústria brasileira, mas piora uma situação de estagnação. Os setores mais dependentes dos EUA serão os mais afetados, e as medidas anunciadas pelo governo podem aliviar o caixa, mas somente no curto prazo.

Dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) indicam que a produção industrial brasileira opera cerca de 15% abaixo do pico registrado em 2011 e, nos cinco primeiros meses de 2026, o crescimento do setor ficou concentrado principalmente na indústria extrativa, enquanto a transformação permaneceu estagnada.

“Esse contraste evidencia que o desempenho do setor tem sido sustentado por atividades ligadas à extração de recursos naturais, sem uma recuperação equivalente dos segmentos de maior valor agregado, o que se reflete no encolhimento da participação da indústria de transformação no PIB, que saiu de 35,9% em 1985, o maior nível da série, para 11,8% em 2025”, disse Gerlane Andrade, da Firjan.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a perda de competitividade do setor vem da falta de inserção internacional por meio da abertura comercial e da celebração de acordos. O economista afirma que o Brasil permaneceu relativamente fechado e manteve um elevado nível de proteção tarifária:

“Precisamos aumentar a taxa de investimento, atrair capital, concluir a Reforma Tributária, melhorar a infraestrutura e ampliar acordos comerciais, especialmente com economias desenvolvidas. É isso que permitirá aumentar a produtividade e recuperar a competitividade da indústria brasileira.”

Tributação alta

Claudio Considera, pesquisador associado do FGV Ibre, avalia que o principal desafio é justamente a busca por novos mercados para exportar, em um momento em que outros países seguem o mesmo movimento. Ele acredita que, embora o Brasil tenha mantido exportações relevantes diante do tarifaço de Trump, a concentração da pauta em commodities limita o diferencial do país.

Para compensar as perdas da indústria e conquistar novos mercados, ele considera necessário aumentar a produtividade para tornar o país mais competitivo no cenário mundial. E isso passa por começar a repensar questões estruturais, como a desindustrialização precoce que já acontece desde a década de 1980. O economista também cita como central a questão dos impostos sobre a indústria de transformação. Segundo ele, quanto mais elevado o imposto, menor a participação do setor no Produto Interno Bruto (PIB):

“A razão principal da indústria estar assim é a falta de investimento. Isso leva a uma produtividade menor da indústria e à sua perda de participação no PIB”, apontou.

Considera acredita que a Reforma Tributária pode favorecer a indústria ao reduzir a carga sobre o setor, baratear produtos e estimular a demanda e a produtividade, mas ressalta que os efeitos serão graduais e deverão ser acompanhados pelo controle dos gastos públicos para compensar eventuais perdas de arrecadação. (Com informações do jornal O Globo)

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