Domingo, 29 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 28 de março de 2026
O consumo regular de café pode estar associado à redução do risco de demência e ao envelhecimento saudável, segundo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
A pesquisa acompanhou cerca de 130 mil pessoas ao longo de quase 40 anos. Nesse período, 11.033 participantes desenvolveram demência. Os resultados indicam que indivíduos com maior consumo de café — entre duas e três xícaras de 237 ml por dia — apresentaram risco 18% menor de desenvolver a condição em comparação com aqueles que consumiam menos.
O estudo também identificou benefícios associados ao consumo de chá. A ingestão diária de uma a duas xícaras foi relacionada a uma redução de 14% no risco de demência.
Além disso, o consumo dessas bebidas foi associado a menor prevalência de declínio cognitivo subjetivo, caracterizado pela percepção de perda de memória. Em testes objetivos, os participantes que consumiam café ou chá apresentaram desempenho ligeiramente superior em memória verbal e atenção.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que os efeitos observados são modestos e não substituem outras estratégias de prevenção. Daniel Wang, professor da Escola de Medicina de Harvard e autor sênior do estudo, afirmou que os achados devem ser interpretados com cautela.
Em comunicado, ele destacou que, embora os dados sejam encorajadores, “o tamanho do efeito é pequeno e existem diversas formas relevantes de proteger a função cognitiva ao longo do envelhecimento”. Segundo Wang, o consumo de café ou chá com cafeína pode representar apenas um dos fatores envolvidos nesse processo.
Café descafeinado
Os efeitos positivos foram observados principalmente entre os participantes que consumiam café com cafeína. Em alguns casos, o alto consumo de café descafeinado esteve associado a maior percepção de declínio cognitivo.
Os autores, no entanto, alertam que essa relação não indica necessariamente um efeito prejudicial do café descafeinado. Pessoas que optam por essa versão frequentemente apresentam condições pré-existentes, como distúrbios do sono, ansiedade ou doenças cardiovasculares, que podem influenciar a saúde cognitiva.
Possíveis mecanismos
A cafeína pode contribuir para a saúde cerebral por diferentes mecanismos. Ao bloquear receptores de adenosina A1 e A2A, ela favorece a comunicação entre neurônios e pode reduzir o acúmulo de beta-amiloide, proteína associada à doença de Alzheimer.
Estudos experimentais citados pelos autores sugerem ainda que a substância pode interferir em processos ligados ao desenvolvimento da demência, ao inibir enzimas como β-secretase e γ-secretase, envolvidas na produção dessa proteína. Também há indícios de melhora na plasticidade cerebral e no funcionamento das células nervosas.
Outro ponto destacado é o potencial efeito anti-inflamatório da cafeína, com redução de substâncias associadas à inflamação no cérebro. A substância também tem sido relacionada à melhora da sensibilidade à insulina e à redução do risco de diabetes tipo 2, fator considerado relevante para o desenvolvimento de demência.
Não é só a cafeína
Especialistas apontam que os benefícios não se limitam à cafeína isoladamente. O médico cardiologista Luiz Antônio Machado César, do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), afirma que os efeitos positivos estão ligados ao conjunto de compostos presentes no café.
Segundo ele, a bebida contém substâncias fenólicas com propriedades antioxidantes e potencial efeito protetor sobre o cérebro. “Não é a cafeína isoladamente. O efeito provavelmente resulta da combinação de compostos presentes no café, potencializados pela cafeína”, afirma.
O café é rico em polifenóis e ácido clorogênico, enquanto o chá contém catequinas, epigalocatequina-3-galato (EGCG) e L-teanina. Esses compostos apresentam propriedades antioxidantes e podem contribuir para a melhora da função vascular cerebral, reduzindo o estresse oxidativo e favorecendo a proteção das células nervosas.