Sexta-feira, 13 de Março de 2026

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No mês dedicado às mulheres, em que ações distribuem flores e empresas publicam posts sobre empoderamento feminino, a realidade dos fatos escancara diversos tipos de violência no cotidiano.

Não vou falar aqui em estatísticas de feminicídio ou de estupro, que realmente são assustadoras e precisam ser combatidas com urgência. Vou tratar de uma outra forma de violência, mais silenciosa, porém igualmente devastadora para a mulher: a negação do nosso direito à intimidade.

Recentemente, fomos testemunhas de mais um episódio inaceitável. No bojo das investigações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, mensagens de cunho estritamente pessoal com sua noiva e outras mulheres foram vazadas e expostas na mídia e nas redes sociais.

Quero ser muito clara: não estou discutindo o mérito da investigação judicial. O que estou questionando é o porquê de conversas íntimas, que não possuem qualquer relação com os fatos investigados ou com o interesse público, terem sido jogadas no ventilador da internet.

A intimidade da mulher não é prova processual. Quando conversas privadas de mulheres são expostas para virar meme ou manchete de fofoca, o que vemos é uma violência gratuita. Essas mulheres não são o alvo da investigação, mas tornam-se vítimas de uma exposição que deixa uma ferida aberta e permanente.

O que cai na internet, fica na internet. É uma sentença perpétua de exposição que nenhuma dessas mulheres mereceu receber. Quem já passou por isso sabe quanto é brutal e injusto.

E pode haver consequências, uma vez que a integridade e o estado psíquico dessas mulheres também são comumente abalados.

Onde está o limite? Por que a sociedade negligencia o direito à privacidade feminina com tanta facilidade?

Quase ninguém toca nesse assunto. É mais fácil rir do print, compartilhar o post ou comentar a vida alheia do que se indignar com a violação de um direito fundamental. Essa exposição é uma forma de controle e de desumanização. É dizer que, independentemente do que você conquistou, sua vida privada pode ser usada para te diminuir a qualquer momento.

Não podemos aceitar que a dignidade feminina seja rifada em situações como vazamentos seletivos. Respeitar a mulher também é respeitar o seu direito de ter uma vida privada.

Nossa intimidade não é pública. E o silêncio diante disso é conivência. (Artigo de Ana Seleme, advogada, mediadora e consultora jurídica, publicado no portal da revista Veja)

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