Quarta-feira, 08 de Dezembro de 2021

Home em foco Chega ao Brasil tratamento para a dependência em jogos eletrônicos inspirado no Alcoólatras Anônimos

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Véspera de Natal de 2019, o professor A.B.P., aos 37 anos, era o responsável por uma série de tarefas familiares, que não conseguiu cumprir. Não era a primeira vez ele se atrapalhava. Não conseguia mais se concentrar nas aulas de sua segunda graduação e já estava arrumando problemas para seu casamento. Mesmo sendo adulto, ele só pensava (e jogava) videogame.

“Comecei a jogar quando criança com o Atari, na adolescência ganhei um computador e comecei a jogar por ele e, depois, pelo celular. Há algum tempo percebi que eu tinha uma vontade muito grande de jogar e isto estava saindo do meu controle. Por exemplo, teve vezes que eu jogava no trabalho”, relata.

A confusão provocada naquele Natal, no entanto, o levou a tomar uma decisão que mudou a vida dele e de todos em volta — decidiu experimentar um tratamento que havia visto em um site americano, onde as pessoas compartilhavam sua experiência com o vício em jogos eletrônicos. O bom resultado o fez trazer para o Brasil a experiência, com interações em português. Detalhe: o anonimato é obrigatório nesse tipo de terapia.

“Quando descobri o CGAA, comecei a dividir tudo o que estava me incomodando e percebi que outras pessoas tinham uma história de vida muito parecida com a minha”, explica A.B.P.

Ele afirma que passou a participar diariamente das reuniões em inglês e falar sempre que podia. Nas conversas, os membros trocam dicas de como parar ou reduzir a frequência dos jogos, assim como manejar a ansiedade provocada pela abstinência e a controlar os gatilhos que geram a ânsia pelo jogo.

“Primeiro fiquei sem jogar por quatro meses, mas por conta da pandemia e da necessidade de ficar dentro de casa, me desmotivei e acabei tendo uma recaída. Fiquei entre idas e vindas. Mas agora faz oito meses que estou sem jogar, estou bem mais tranquilo e conseguindo lidar com as coisas de maneira muito melhor, controlar meu tempo e minhas emoções”, comemora.

Qualquer semelhança com o estilo da AA, os Alcoólicos Anônimos, não é mera coincidência. Com o nome de Computer Gaming Addicts Anonymous (CGAA) — Adictos em Jogos Eletrônicos Anônimos —, a terapia contempla duas reuniões semanais que, por enquanto, ocorrem por Zoom.

Esse formato de tratamento começou a ser desenhado em 2004, quando um grupo de jogadores eletrônicos americanos começou a compartilhar em um fórum online os prejuízos que os jogos estavam causando em suas vidas. Durante dez anos eles foram se organizando e percebendo que a ajuda mútua fazia bem para os membros.

Em 2014, decidiram que adaptariam os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, que têm como base primordial reconhecer a impotência diante do vício e observar os prejuízos causado por ele. Hoje o grupo conta com centenas de pessoas de várias partes do mundo, com reuniões online acontecendo em inglês, espanhol, alemão e russo e, agora em português. Por enquanto os encontros presenciais estão limitados a algumas cidades americanas.

Questão de saúde

Chamada de gaming disorder, a dependência de jogos de eletrônicos é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. A condição entrou o CID 11 (11ª edição da Classificação Internacional de Doenças, que padroniza a caracterização e notificação de doenças em todo o mundo) em 2018 e será formalizada a partir de 1º de janeiro de 2022.

Nem sempre o tempo em si dispendido em frente ao computador ou celular é sinalizador de se tratar de um vício. O problema se estabelece quando o hábito atropela compromissos importantes e a convivência com amigos próximos. Ou então, quando o interfere em questões de saúde, como o sono, as refeições e a higiene pessoal.

O problema é definido como um padrão de comportamento caracterizado pela perda de controle sobre o tempo de jogo, sobre a prioridade dada aos jogos em detrimento de outras atividades importantes e continuação ou aumento do tempo de jogo apesar das consequências negativas associadas a ele.

O perfil

O número de pessoas que jogam games eletrônicos estimado pela Entertainment Software Association, associação comercial da indústria de videogames nos Estados Unidos, é gigante: cerca de 2,6 bilhões em todo mundo. Estudo feito pela Associação Americana de Psiquiatria mostra cerca de 1% da população mundial sofre com vício em jogos eletrônicos.

O perfil de quem sofre de dependência em jogos eletrônicos costuma ser de pessoas do sexo masculino e de classe média (por ter acesso a aparelhos eletrônicos). Normalmente, o interesse pelos games começa na adolescência. Pessoas que apresentam quadros de depressão e baixa autoestima, que tenham uma visão diminuída em relação a si mesmos, estão mais vulneráveis à dependência, já que enquanto jogam eles se sentem bons em alguma coisa.

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