Terça-feira, 14 de Abril de 2026

Home Ciência China mira a Lua e pode pisar lá antes dos americanos

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Mais de meio século depois de os Estados Unidos terem colocado seres humanos na Lua, o país está novamente envolvido em uma corrida espacial. Desta vez, com a China.

No último dia 1º, a Nasa enviou astronautas em uma jornada para um sobrevoo lunar, um marco rumo a ambições ainda maiores. A histórica missão Artemis II, que marcou o retorno do homem à órbita lunar, chegou ao fim na sexta-feira (10). Após dez dias, os quatro astronautas a bordo da cápsula Orion, da Nasa, voltaram à Terra com um pouso realizado no Oceano Pacífico, a cerca de 100 quilômetros da costa da Califórnia (EUA), às 21h07 (horário de Brasília).

Tanto os americanos quanto os chineses querem estabelecer bases ao redor do polo sul lunar e esperam explorar água congelada, hidrogênio e hélio na região. Ambos também planejam construir reatores nucleares para abastecer bases lunares a partir das quais poderão lançar missões para o espaço profundo.

É uma nova fronteira, e quem chegar primeiro terá grande influência na definição das regras.

O programa Artemis tem enfrentado alguns obstáculos. Os EUA querem voltar à Lua até 2028, dois anos antes da meta da China, mas até a própria Nasa reconhece que pode não vencer.

“Eles podem chegar antes”, afirmou o administrador da agência americana, Jared Isaacman, na semana passada. “E a história recente sugere que podemos nos atrasar.”

A China mantém suas ambições lunares com um foco singular e formidável. Seu programa tem várias vantagens em relação ao dos rivais americanos.

Especialistas afirmam que a vantagem da China está no controle centralizado, que permite planejar e financiar projetos por décadas a fio. Suas missões espaciais robóticas, por exemplo, já foram aonde os EUA não chegaram.

A China é a única nação a pousar e coletar amostras do lado afastado da Lua, o hemisfério que está sempre voltado para o lado oposto da Terra. A sétima missão robótica chinesa, a Chang’e 7, vai explorar o polo sul lunar e está prevista para este ano.

Ajuda o fato de que a ambição imediata do país asiático é mais modesta. Os astronautas chineses planejam pousar no lado próximo da Lua, relativamente mais acessível. Foi ali que Neil Armstrong deu “um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade” em 1969.

Os americanos estão mirando o polo sul da Lua.

Uma reformulação recente do programa pode acelerar o Artemis. O novo plano inclui mais lançamentos para testar componentes, ganhar confiança e reduzir riscos, segundo Isaacman. Após o retorno de astronautas à Lua, a Nasa pretende lançar missões a cada seis meses e manter uma presença permanente lá.

“Desta vez, o objetivo não é bandeiras e pegadas”, afirmou Isaacman. “Desta vez, o objetivo é ficar.”

A China está perseguindo objetivos semelhantes por meio de dois programas que provavelmente serão unificados: missões tripuladas sob a supervisão militar e missões robóticas civis.

Ambos os programas dependem de componentes construídos principalmente pela China Aerospace Science and Technology Corp., uma empresa que combina expertise industrial e militar. Isso significa que eles compartilham tecnologias-chave.

A Nasa depende mais de fornecedores privados.

Yuqi Qian, geólogo lunar da Universidade de Hong Kong que trabalha nas missões lunares da China, disse que, como a primeira missão tripulada chinesa quer percorrer parte do mesmo terreno já explorado pelas missões Apollo há muito tempo, os cientistas têm mais liberdade para experimentar.

Os programas de exploração chineses continuarão avançando em um ritmo estabelecido anos atrás, independentemente do que o Artemis fizer, afirmou ele.

“Na verdade, não há pressão do lado chinês”, continuou Qian. “Estamos fazendo isso com mais liberdade.”

“Não acho que a China veja isso como uma corrida”, acrescentou.

A China planeja usar um foguete construído pelo governo, o Longa Marcha 10, para o pouso na Lua. Ele tem aproximadamente a altura de um prédio de 30 andares e possui sete motores em sua base, a parte conhecida como primeiro estágio.

Nos testes iniciais, cientistas chineses acionaram os motores do foguete enquanto ele estava preso. Depois, em fevereiro, eles acionaram 5 dos 7 motores e lançaram o primeiro estágio a uma altura de pouco mais de 100 quilômetros.

A China está atrás dos EUA em tecnologia de foguetes, uma defasagem que tem atrasado sua tentativa de competir com a rede de satélites Starlink, da SpaceX, em órbita terrestre baixa. Os chineses não dispõem de um foguete reutilizável que se equipare ao Falcon 9 da empresa de Elon Musk.

Partes do Longa Marcha 10 podem vir a se tornar reutilizáveis, porém isso importa menos para missões lunares, que são menos frequentes do que lançamentos para colocar satélites em órbita.

O lançador americano, o SLS (Space Launch System), representa uma melhoria significativa em relação ao sistema que enviou astronautas à Lua no programa Apollo. É um foguete potente e complexo, montado a partir de componentes fabricados pela Nasa e por múltiplos contratantes.

O SLS não foi usado muitas vezes, mas no último dia 1º decolou para sua primeira missão tripulada sob um céu azul e limpo. Foi uma grande vitória para a Nasa, e espera-se que lançamentos mais frequentes resultem na solução de eventuais problemas.

A China está desenvolvendo uma nova espaçonave chamada Mengzhou, ou barco dos sonhos, que pode transportar até sete astronautas. Ela foi projetada tanto para missões lunares quanto para viagens à estação espacial chinesa, a Tiangong, a cerca de 450 quilômetros acima da Terra.

A espaçonave levará astronautas até uma órbita lunar. Uma vez lá, ela fará o encontro com um módulo de pouso que levará os astronautas à superfície da Lua. A China planeja realizar a missão lunar com dois lançamentos, em parte porque não possui um foguete grande o suficiente.

A China testará a capacidade da Mengzhou de se encontrar e acoplar à estação espacial chinesa ainda neste ano. Encontros orbitais semelhantes já foram testados em missões robóticas à Lua.

A Mengzhou passou em seu teste mais recente, em fevereiro, quando demonstrou sua capacidade de abortar nos primeiros minutos de um lançamento. A espaçonave se desacoplou com sucesso de um foguete sob condições de pressão máxima, de acordo com a mídia estatal.

A espaçonave americana, Orion, foi testada pela primeira vez em 2014 e está mais avançada em seu desenvolvimento. A Orion transportou os quatro astronautas na Artemis 2. A Nasa testará seus sistemas de suporte à vida e controle ambiental durante a missão.

A versão chinesa do módulo de pouso lunar, chamada Lanyue (abraçando a Lua), incorpora décadas de aprimoramentos.

De acordo com o projeto da missão, depois que os astronautas embarcarem em órbita, o módulo de pouso seguirá para a superfície lunar. Lá, servirá como residência temporária, centro de dados e fonte de energia para a tripulação. As informações são do jornal The New York Times.

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