Domingo, 21 de Julho de 2024

Home Variedades Cientistas alertam para padrão em mortes e desaparecimentos de turistas na Grécia: “Todos caminharam no calor”

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Primeiro, foi o apresentador Michael Mosley, encontrado morto dias após ter saído para um passeio em uma ilha grega. Depois, um turista americano de 55 anos, cujo corpo foi descoberto seis dias depois na ilha de Corfu, destino semelhante ao do turista holandês de 74 anos, encontrado sem vida na Ilha de Samos. Também estão desaparecidas duas turistas francesas, uma de 73 anos e outra de 64 anos, nas ilhas gregas de Sikinos, e o americano Albert Calibet, em Amorgos. Entre as mortes e desaparecimentos, um padrão: todos faziam caminhada sob o sol quente, no momento em que a Grécia é atingida por uma onda de calor e as temperaturas ultrapassam os 40ºC.

Um exame preliminar no corpo de Mosley obtido pela BBC, na semana passada, revelou que ele teria morrido de causas naturais, enquanto os outros turistas mortos, como americano de 55 anos, levado para um hospital em Corfu, ainda passam por autópsia. Mas as autoridades locais têm alertado as pessoas para que não subestimem os impactos das altas temperaturas.

“Há um padrão”, disse Petros Vassilakis, porta-voz da polícia para o sul do Egeu, à agência de notícias Reuters. “Todos fizeram uma caminhada em meio as altas temperaturas.”

Apesar do país mediterrânico estar habituado aos dias de calor extremo, as temperaturas atípicas que atingem a Grécia já deixaram cinco mortos no total, incluindo, além dos três turistas, outros dois idosos em Chipre, onde as temperaturas chegaram a 43ºC. O Ministério da Cultura também fechou a Acrópole de Atenas e alguns de seus principais pontos turísticos, bem como sítios arqueológicos, nos horários de pico das temperaturas, isto é, entre 12h e 17h (horário local).

Alguns cientistas afirmaram que o que está acontecendo na Grécia é um alerta sobre os efeitos do calor extremo no corpo, e em particular no cérebro, causando confusão, afetando a capacidade de tomada de decisão das pessoas e até sua percepção de risco, explicou a neurocientista da Universidade Estadual de Washington Kim Meidenbauer à rede CNN.

As redes cerebrais que normalmente permitem pensar com clareza, raciocinar, lembrar e formular ideias podem ficar “desequilibradas” e, nesse caso, fica mais difícil tomar decisões que, em condições normais, seriam simples – como escolher o caminho em que seguir durante uma caminhada. A neurocientista também disse que as pessoas ficam mais propensas a tomar decisões arriscadas e tomar decisões arriscadas e impulsivas.

“Não se trata apenas de ficar um pouco quente demais e talvez ter uma queimadura no corpo”, explicou Meidenbauer, acrescentando: “Estamos falando de situações potencialmente perigosas para a vida, como tomar más decisões, ter o discernimento afetado”.

Com o avanço das mudanças climáticas e os sucessivos recordes de temperatura, o pesquisador Damian Bailey, professor de fisiologia e bioquímica da Universidade de Gales, do Sul, quer entender como o órgão é afetado pelo calor e a sua resposta.

Bailey, que considera o cérebro “a chave de tudo” e o “interruptor mestre do corpo”, explicou à rede CNN que é a partir do órgão que a temperatura corporal é regulada. Uma pequena estrutura, chamada hipotálamo, funciona como um termostato, realizando uma operação delicada para manter a temperatura interna em cerca de 37ºC. Quando está calor, o hipotálamo ativa as glândulas sudoríparas, responsáveis pelo suor, e dilata os vasos sanguíneos para resfriar o corpo.

Mas, o pesquisador alerta que o cérebro funciona apenas dentro de uma faixa estreita de temperatura, destacando à rede que pequenas mudanças nos termômetros podem afetá-lo. Isso explicaria, por exemplo, a sensação de lentidão e preguiça nos dias mais quentes. E a medida que a temperatura aumenta, o corpo sente seus efeitos, incluindo a redução dos fluidos no corpo e a diminuição do fluxo sanguíneo para o cérebro. Um teste realizado por Bailey mostrou que, ao aumentar as temperaturas de 21ºC para 40ºC, os participantes mostraram uma queda no fluxo sanguíneo de 9% a 10%.

“Isso é um grande problema à medida em que não se consegue colocar combustível suficiente em um motor que funciona em alta velocidade o tempo todo”, exemplificou o pesquisador à rede americana.

Os mais vulneráveis às mudanças climáticas costumam ser idosos, crianças pequenas e mulheres grávidas, assim como aqueles com doenças pré-existentes e transtornos mentais. Apesar disso, as temperaturas altas podem ser letais para qualquer um.

“Somos o meteoro”

Dias antes da primeira onda de calor atingir a Grécia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, já alertava sobre o rápido avanço da crise climática e apresentou um dado preocupante: segundo o Observatório Europeu do Clima Copernicus, o mês de maio foi o mais quente já registrado nesse período do ano, sendo classificado como o “12º mês consecutivo” com recordes de calor.

“Das grandes forças que moldaram a vida na Terra ao longo de bilhões de anos, a humanidade é apenas um pontinho no radar”, disse Guterres no Museu Americano de História Natural, em Nova York.  “Mas, assim como o meteorito que exterminou os dinossauros, estamos causando um impacto gigantesco. No caso do clima, não somos os dinossauros. Nós somos o meteoro. Não estamos apenas em perigo. Nós somos o perigo.”

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