Sexta-feira, 09 de Janeiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 7 de janeiro de 2026
Um dos processos mais básicos e fundamentais da vida, o sono ocupa cerca de um terço da existência humana. Embora a neurociência já tenha desvendado diversos aspectos desse fenômeno, uma questão central permanecia em aberto: como, exatamente, o cérebro faz a transição da vigília para o sono?
Um estudo liderado por pesquisadores do UK Dementia Research Institute, no Imperial College London, e da Universidade de Surrey, na Inglaterra, pode ter esclarecido esse ponto. Segundo os autores, o cérebro não adormece de forma gradual. Há, na verdade, um momento crítico e bem definido em que essa transição ocorre.
O professor da Universidade de São Paulo (USP) Geraldo Lorenzi explica a fisiologia por trás do processo, observada por meio do eletroencefalograma (EEG), exame que registra a atividade cerebral a partir das ondas elétricas produzidas pelos neurônios.
“Quando estamos acordados, as ondas cerebrais são rápidas”, afirma o especialista em Medicina do Sono. Isso ocorre porque os neurônios estão altamente ativos. “Dormir, pegar no sono ou entrar em sonolência é, basicamente, um processo de lentificação dessas ondas cerebrais”, completa.
De acordo com o estudo, publicado na revista Nature Neuroscience, essa passagem da vigília para o sono acontece de forma abrupta e pode ser identificada — e até antecipada — por meio de modelos matemáticos. Os pesquisadores apontam que o chamado ponto de inflexão cerebral ocorre, em média, cerca de 4,5 minutos antes de a pessoa adormecer segundo os critérios tradicionais.
Ou seja, o momento decisivo não coincide exatamente com o início do sono, mas acontece antes, quando o cérebro atinge um estado irreversível. A partir desse ponto, não há retorno ao estado plenamente desperto. Essas mudanças, segundo os autores, “podem ser parcialmente medidas de forma não invasiva por meio de eletroencefalogramas de couro cabeludo”.
Em termos práticos, os cientistas identificaram o instante em que o cérebro “decide” dormir. Antes desse ponto — comparado pelos pesquisadores ao topo de uma montanha-russa — ainda é possível resistir ao sono. Depois dele, o sistema de vigília entra em colapso e dá lugar ao estado de sono.
Caminho do sono
Para testar a hipótese, os autores analisaram registros de EEG de mais de mil pessoas. A partir desses dados, foram extraídas 47 medidas distintas da atividade cerebral, reunidas em um amplo modelo matemático. O resultado foi uma espécie de “GPS do sono”, capaz de indicar em que estágio o cérebro se encontra no caminho entre estar acordado e adormecer.
Com eletroencefalogramas não invasivos, os pesquisadores mapearam os momentos que antecedem o sono como uma trajetória no espaço de características da atividade cerebral. Essa medida, que se mantém estável até cair de forma abrupta, foi chamada de “distância do sono”.
Os resultados contrariam a visão tradicional de que adormecer seria um processo gradual e contínuo. Segundo os dados, a distância do sono permanece praticamente constante até despencar de maneira súbita. Para definir esse instante em que o estado de vigília deixa de existir, os autores utilizaram o termo matemático “bifurcação”.
Para Lorenzi, que não participou do estudo, a descoberta ajuda a explicar uma sensação comum. “Existe essa fase intermediária, em que a pessoa fica meio acordada, meio dormindo, o chamado ‘lusco-fusco’. Mas, de repente, o sono acontece”, afirma.
Em comunicado, o líder da pesquisa, Nir Grossman, do Imperial College London, resume a principal conclusão: “Descobrimos que adormecer é um processo de bifurcação, e não gradual, com um ponto de inflexão claro que pode ser previsto em tempo real”. Segundo ele, o achado pode ter implicações importantes no tratamento de distúrbios do sono.
Um dos destaques do estudo foi a capacidade de prever a progressão para o sono em noites seguintes com até 95% de precisão, segundo a segundo. A previsão do momento exato do ponto de inflexão apresentou uma margem de erro de apenas 49 segundos.