Segunda-feira, 26 de Outubro de 2026

Home Colunistas Coesão social: como construir um futuro em comum?

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Uma sociedade não se sustenta apenas por suas leis, instituições ou pela capacidade de produzir riqueza. Ela também depende de algo menos visível, mas fundamental: a disposição das pessoas para conviver, confiar umas nas outras e reconhecer que, apesar das diferenças, compartilham um destino comum. Essa capacidade de construir vínculos, cooperar e preservar algum sentido de pertencimento é o que chamamos de coesão social. Em um mundo atravessado por transformações tecnológicas, econômicas e culturais aceleradas, compreender o que mantém uma sociedade unida tornou-se um desafio cada vez mais importante.

A história mostra que as comunidades humanas sempre precisaram encontrar formas de organizar a convivência. Famílias, vizinhanças, associações, cooperativas, instituições religiosas, movimentos culturais e organizações comunitárias ajudaram a construir laços de solidariedade e confiança. Esses vínculos não eliminaram conflitos nem desigualdades, mas criaram espaços de encontro e mecanismos para enfrentar dificuldades coletivamente. A coesão social não exige que todos pensem da mesma maneira. Ela depende, sobretudo, da possibilidade de discordar sem transformar o outro em inimigo.

Essa construção, entretanto, enfrenta dificuldades crescentes. A desigualdade econômica, a insegurança no trabalho, a precariedade dos serviços públicos e a sensação de falta de perspectivas podem alimentar frustrações e distanciamentos. Quando parcelas da população percebem que as oportunidades estão concentradas ou que suas necessidades não são reconhecidas, a confiança nas instituições e nos demais grupos sociais tende a se fragilizar. O problema não se resume à diferença de renda: envolve também a percepção de justiça, a possibilidade de participar das decisões e a expectativa de que o futuro possa oferecer condições melhores de vida.

As transformações tecnológicas acrescentam novos elementos a esse cenário. A internet ampliou o acesso à informação e aproximou pessoas separadas por grandes distâncias. As redes digitais permitem mobilizar comunidades, compartilhar conhecimentos e dar visibilidade a questões antes ignoradas. Ao mesmo tempo, podem favorecer a circulação de desinformação, a hostilidade e o isolamento em grupos que compartilham apenas as mesmas opiniões. Quando os sistemas digitais selecionam conteúdos para manter nossa atenção, corremos o risco de passar a enxergar o mundo por recortes cada vez mais estreitos, reforçando convicções e reduzindo o contato com experiências diferentes das nossas.

A inteligência artificial pode ampliar esse desafio. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e vozes convincentes tornam mais difícil distinguir conteúdos autênticos de materiais fabricados. Também podem ser utilizadas para personalizar mensagens, explorar vulnerabilidades e influenciar comportamentos. O perigo não está na tecnologia em si, que também pode ajudar a combater a desinformação e ampliar o acesso ao conhecimento, mas na forma como é desenvolvida e utilizada. Quando a confiança na informação se deteriora, torna-se mais difícil construir consensos mínimos e tomar decisões coletivas com base em fatos compartilhados.

O sociólogo Zygmunt Bauman refletiu sobre a fragilidade dos vínculos humanos em sociedades marcadas pela rapidez das mudanças e pela instabilidade das relações. Suas ideias ajudam a pensar um tempo em que conexões podem ser estabelecidas instantaneamente, mas nem sempre se transformam em relações duradouras. Estamos permanentemente conectados a dispositivos e plataformas, porém isso não significa necessariamente que estejamos menos sozinhos ou mais próximos uns dos outros. A quantidade de contatos não substitui a qualidade dos vínculos, assim como a velocidade da comunicação não garante compreensão.

Há ainda uma questão relacionada à própria transformação econômica discutida no artigo anterior. Se a inteligência artificial e a automação elevarem a produtividade, mas seus benefícios ficarem concentrados em poucos grupos, o resultado poderá ser uma sociedade mais rica em termos materiais e, ao mesmo tempo, mais dividida. Por outro lado, se as novas capacidades tecnológicas forem utilizadas para ampliar oportunidades, melhorar serviços e reduzir obstáculos ao acesso à educação, à saúde e à energia, poderão contribuir para uma vida coletiva mais digna. O resultado não será determinado apenas pelas máquinas, mas pelas escolhas econômicas, políticas e sociais que fizermos.

A coesão social também depende de reconhecer que não somos indivíduos isolados. Nossa formação é atravessada pela família, pela cultura, pelo território, pelas experiências compartilhadas e pelas relações que estabelecemos ao longo da vida. As tradições regionais, as manifestações culturais, os espaços públicos e as iniciativas comunitárias podem criar oportunidades de encontro entre pessoas de diferentes origens e opiniões. Em uma época de mudanças rápidas, preservar esses espaços não significa rejeitar a modernidade, mas garantir que a inovação não apague as referências que ajudam a construir identidade e pertencimento.

Não existe uma fórmula única para produzir confiança ou eliminar conflitos. Educação, instituições transparentes, oportunidades econômicas e participação social são fundamentais, mas também precisamos cultivar a escuta, a empatia e a disposição para reconhecer a humanidade de quem pensa diferente. Isso exige responsabilidade de governos, empresas, meios de comunicação, plataformas digitais e cidadãos. Uma sociedade coesa não é aquela em que todos concordam, mas aquela que consegue transformar diferenças em diálogo e problemas comuns em oportunidades de cooperação.

Diante de uma transformação histórica, talvez o maior desafio não seja apenas adaptar nossas instituições às novas tecnologias, mas preservar a capacidade de agir coletivamente. Nenhum avanço científico ou econômico garante, por si só, que saberemos conviver melhor. Essa construção depende de escolhas cotidianas, da qualidade das relações e do compromisso com um futuro que não seja reservado apenas a alguns.

Em um mundo cada vez mais conectado por máquinas, seremos capazes de fortalecer os vínculos humanos que nos permitem construir, apesar das diferenças, um futuro verdadeiramente comum?

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética.

 

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Uma sociedade não se sustenta apenas por suas leis, instituições ou pela capacidade de produzir riqueza. Ela também depende de algo menos visível, mas fundamental: a disposição das pessoas para conviver, confiar umas nas outras e reconhecer que, apesar das diferenças, compartilham um destino comum. Essa capacidade de construir vínculos, cooperar e preservar algum sentido de pertencimento é o que chamamos de coesão social. Em um mundo atravessado por transformações tecnológicas, econômicas e culturais aceleradas, compreender o que mantém uma sociedade unida tornou-se um desafio cada vez mais importante.

A história mostra que as comunidades humanas sempre precisaram encontrar formas de organizar a convivência. Famílias, vizinhanças, associações, cooperativas, instituições religiosas, movimentos culturais e organizações comunitárias ajudaram a construir laços de solidariedade e confiança. Esses vínculos não eliminaram conflitos nem desigualdades, mas criaram espaços de encontro e mecanismos para enfrentar dificuldades coletivamente. A coesão social não exige que todos pensem da mesma maneira. Ela depende, sobretudo, da possibilidade de discordar sem transformar o outro em inimigo.

Essa construção, entretanto, enfrenta dificuldades crescentes. A desigualdade econômica, a insegurança no trabalho, a precariedade dos serviços públicos e a sensação de falta de perspectivas podem alimentar frustrações e distanciamentos. Quando parcelas da população percebem que as oportunidades estão concentradas ou que suas necessidades não são reconhecidas, a confiança nas instituições e nos demais grupos sociais tende a se fragilizar. O problema não se resume à diferença de renda: envolve também a percepção de justiça, a possibilidade de participar das decisões e a expectativa de que o futuro possa oferecer condições melhores de vida.

As transformações tecnológicas acrescentam novos elementos a esse cenário. A internet ampliou o acesso à informação e aproximou pessoas separadas por grandes distâncias. As redes digitais permitem mobilizar comunidades, compartilhar conhecimentos e dar visibilidade a questões antes ignoradas. Ao mesmo tempo, podem favorecer a circulação de desinformação, a hostilidade e o isolamento em grupos que compartilham apenas as mesmas opiniões. Quando os sistemas digitais selecionam conteúdos para manter nossa atenção, corremos o risco de passar a enxergar o mundo por recortes cada vez mais estreitos, reforçando convicções e reduzindo o contato com experiências diferentes das nossas.

A inteligência artificial pode ampliar esse desafio. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e vozes convincentes tornam mais difícil distinguir conteúdos autênticos de materiais fabricados. Também podem ser utilizadas para personalizar mensagens, explorar vulnerabilidades e influenciar comportamentos. O perigo não está na tecnologia em si, que também pode ajudar a combater a desinformação e ampliar o acesso ao conhecimento, mas na forma como é desenvolvida e utilizada. Quando a confiança na informação se deteriora, torna-se mais difícil construir consensos mínimos e tomar decisões coletivas com base em fatos compartilhados.

O sociólogo Zygmunt Bauman refletiu sobre a fragilidade dos vínculos humanos em sociedades marcadas pela rapidez das mudanças e pela instabilidade das relações. Suas ideias ajudam a pensar um tempo em que conexões podem ser estabelecidas instantaneamente, mas nem sempre se transformam em relações duradouras. Estamos permanentemente conectados a dispositivos e plataformas, porém isso não significa necessariamente que estejamos menos sozinhos ou mais próximos uns dos outros. A quantidade de contatos não substitui a qualidade dos vínculos, assim como a velocidade da comunicação não garante compreensão.

Há ainda uma questão relacionada à própria transformação econômica discutida no artigo anterior. Se a inteligência artificial e a automação elevarem a produtividade, mas seus benefícios ficarem concentrados em poucos grupos, o resultado poderá ser uma sociedade mais rica em termos materiais e, ao mesmo tempo, mais dividida. Por outro lado, se as novas capacidades tecnológicas forem utilizadas para ampliar oportunidades, melhorar serviços e reduzir obstáculos ao acesso à educação, à saúde e à energia, poderão contribuir para uma vida coletiva mais digna. O resultado não será determinado apenas pelas máquinas, mas pelas escolhas econômicas, políticas e sociais que fizermos.

A coesão social também depende de reconhecer que não somos indivíduos isolados. Nossa formação é atravessada pela família, pela cultura, pelo território, pelas experiências compartilhadas e pelas relações que estabelecemos ao longo da vida. As tradições regionais, as manifestações culturais, os espaços públicos e as iniciativas comunitárias podem criar oportunidades de encontro entre pessoas de diferentes origens e opiniões. Em uma época de mudanças rápidas, preservar esses espaços não significa rejeitar a modernidade, mas garantir que a inovação não apague as referências que ajudam a construir identidade e pertencimento.

Não existe uma fórmula única para produzir confiança ou eliminar conflitos. Educação, instituições transparentes, oportunidades econômicas e participação social são fundamentais, mas também precisamos cultivar a escuta, a empatia e a disposição para reconhecer a humanidade de quem pensa diferente. Isso exige responsabilidade de governos, empresas, meios de comunicação, plataformas digitais e cidadãos. Uma sociedade coesa não é aquela em que todos concordam, mas aquela que consegue transformar diferenças em diálogo e problemas comuns em oportunidades de cooperação.

Diante de uma transformação histórica, talvez o maior desafio não seja apenas adaptar nossas instituições às novas tecnologias, mas preservar a capacidade de agir coletivamente. Nenhum avanço científico ou econômico garante, por si só, que saberemos conviver melhor. Essa construção depende de escolhas cotidianas, da qualidade das relações e do compromisso com um futuro que não seja reservado apenas a alguns.

Em um mundo cada vez mais conectado por máquinas, seremos capazes de fortalecer os vínculos humanos que nos permitem construir, apesar das diferenças, um futuro verdadeiramente comum?

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética.

 

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