Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

Home Política Como Eduardo montou nos Estados Unidos rede de contatos que o levaram a Donald Trump e à condenação no Supremo do Brasil

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Passava das 20h quando Steve Bannon chamou a atenção dos convidados com algumas batidinhas na taça de vidro. Ele agradeceu à presença das mais de 50 pessoas que tinham comparecido ao seu jantar de aniversário de 65 anos, em sua casa em Capitol Hill, Washington DC, e afirmou ter um convidado ilustre naquela noite.

Bannon apontou para Eduardo Bolsonaro — então deputado federal pelo PSL de São Paulo e cujo pai, Jair Bolsonaro, havia acabado de ser eleito presidente da República após derrotar Fernando Haddad (PT) — e declarou que o brasileiro seria o representante do The Movement no Brasil. Era uma referência ao grupo internacional de ultradireita fundado por ele.

A festa na casa de Bannon, estrategista da campanha vitoriosa de Donald Trump à Casa Branca em 2016, coroava uma semana de agendas na capital americana, em Nova York e na Flórida. Os contatos feitos naquela semana, entre 26 de novembro e 1º de dezembro de 2018, hoje facilitam o acesso de Eduardo no governo Trump em meio às suas articulações para impôr sanções ao Brasil. Procurado, o deputado não se manifestou.

Eduardo vem nutrindo bom relacionamento com alguns dos contatos que conheceu na viagem de 2018. Ele voltaria a se encontrar com muitos deles em idas aos Estados Unidos e mesmo no Brasil, com a organização da versão brasileira do CPAC, uma conferência ligada à direita trumpista.

A articulação de Eduardo o colocou no alvo de autoridades brasileiras. Ele foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) na terça-feira, 16, a quatro anos e dois meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, pela prática do crime de coação no curso do processo. O colegiado entendeu que ele atuou para interferir no julgamento da ação penal em que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado por tentativa de golpe de Estado.

Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ex-deputado fez declarações públicas e publicações em redes sociais em que afirmou ter feito gestões para que o governo dos Estados Unidos impusesse sanções a autoridades brasileiras, incluindo ministros do STF, e medidas econômicas ao País, em razão do que considera uma perseguição política a seu pai.

A ponte para Washington
A expedição de 2018 fora organizada pelo cientista político Márcio Coimbra, que tinha trabalhado com o Partido Republicano durante sete anos, em campanhas eleitorais e no Leadership Institute, que realiza treinamento para candidatos da legenda. O então secretário de assuntos internacionais do PSL, Filipe Martins, que viria a ser nomeado assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, também os acompanhou. Tinha vindo dele, afinal, a iniciativa da viagem.

Na casa de Bannon, por exemplo, Eduardo conheceu Sebastian Gorka, que havia sido auxiliar de Trump em 2017 e viria a ser nomeado diretor sênior de contraterrorismo na Casa Branca em 2025. Gorka é hoje um dos contatos do deputado mais próximos ao presidente americano.

A primeira agenda do trio em Washington, em 2018, foi com a então subsecretária do Departamento de Estado, Kim Breier. A americana estava preocupada com a situação na Venezuela, e Eduardo lhe disse que Cuba “infiltrava” pessoas no Brasil por meio do programa Mais Médicos, com apoio da Venezuela, mas que seu pai acabaria com o projeto — o país caribenho tinha anunciado, na semana anterior, a suspensão da parceria com o Brasil após Bolsonaro assumir o poder.

O Mais Médicos, implementado pelo governo Dilma Rousseff, ficou associado a Cuba por ter aberto espaço para profissionais da saúde vindos do país caribenho, já que muitos médicos brasileiros tinham resistência para trabalhar em cidades do interior. Em agosto, o governo Trump revogou o visto de um secretário do Ministério da Saúde do Brasil por causa do programa.

Em seguida, eles participaram de uma mesa redonda no American Enterprise Institute, organizada por Roger Noriega, ex-secretário-adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental no governo George W. Bush. A agenda da tarde foi com David Malpass, sub-secretário do Tesouro, para quem Eduardo disse que o governo de seu pai seria pró-livre mercado.

Eduardo, Martins e Coimbra foram recebidos na mesma noite no gabinete do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro. O uruguaio tinha uma postura crítica à condução da democracia na Venezuela, e ouviu do filho do presidente que o governo brasileiro estaria alinhado à OEA nesse assunto.

O dia seguinte teve um constrangimento para o grupo, que fora até a Casa Branca para uma agenda no National Security Council (NSC, o Conselho de Segurança Nacional). Eduardo foi barrado na portaria porque Martins havia trocado os campos de dia e mês ao preencher a data de aniversário do deputado no credenciamento para entrada no prédio — no formato americano, o mês vem antes do dia na notação de data. Com informações do portal Estadão.

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