Quinta-feira, 30 de Julho de 2026

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Nessa minha jornada como trabalhador da construção civil e participante ativo do movimento sindical, tive vários gurus que sempre me inspiraram. Um deles é Martin Luther King. Sua frase histórica me acompanha constantemente em várias situações:

“Eu tenho um sonho”, que todos nós conhecemos e que fez parte do seu discurso na Marcha sobre Washington, reunindo mais de 250 mil pessoas mobilizadas por uma pauta relevante naquela época: o fim da segregação e da discriminação racial, a criação de um piso salarial nacional que garantisse uma vida digna a todos os trabalhadores, independentemente da raça, o fim definitivo das escolas segregadas, a garantia de investimentos iguais na educação dos jovens negros e o direito ao voto.

Outro fato que o coloca na minha lista de eternos gurus é uma parte triste da sua história. King foi assassinado enquanto apoiava uma greve sindical. Ele viajou para Memphis para marchar ao lado dos trabalhadores da limpeza urbana sindicalizados, que protestavam por salários dignos e segurança no trabalho sob o lema “Eu Sou Um Homem”.

Esse lema, segundo fontes históricas, surgiu coletivamente entre trabalhadores e líderes comunitários da greve em Memphis, em 1968, sendo popularizado por organizadores sindicais locais. Naquele momento, a frase significava uma afirmação básica de humanidade, cidadania e respeito, exigindo o fim do tratamento desumanizante e racista que os trabalhadores negros sofriam por parte da prefeitura da cidade. Os homens negros eram tratados como subcidadãos.

O ápice daquela triste realidade ocorreu quando teve início a greve, após a morte trágica de dois coletores de lixo, esmagados por um caminhão compactador ao se abrigarem da chuva, pois não podiam entrar em áreas reservadas aos brancos. A força e a contribuição de Martin Luther King vão muito além desses fatos que cito, é claro. Mas eles já são suficientes para justificar por que ele nos inspira até hoje. Mais do que isso, fazem-nos refletir sobre determinadas situações que vivenciamos atualmente no Brasil.

Esse momento de reflexão e de resgate dos pensamentos e valores do eterno Martin veio à minha mente após acompanhar, no último fim de semana, os fatos e as manifestações lamentáveis do presidente argentino Milei em uma convenção partidária. Quem defende valores de igualdade, direitos sociais e evolução humanitária não pode considerar que o que ele disse seja liberdade de expressão. Não! Isso tem vários outros rótulos. Menos liberdade.

Não precisamos avaliar esse tipo de atitude, pois não se trata de um fato isolado. É uma onda mundial da extrema-direita que tem, entre vários protagonistas, Milei, Trump e, aqui no Brasil, muitos outros.

O que é necessário avaliar é menos o que ele atacou aqui no Brasil e mais o que fez em seu próprio país, contra os trabalhadores argentinos. Na reforma trabalhista recentemente implementada, atacou direitos essenciais e promoveu danos incomensuráveis, entre eles a possibilidade de uma jornada diária de até 12 horas, mudanças no cálculo das rescisões sem justa causa, com a exclusão do 13º salário e das férias da base de cálculo.

Não bastasse a implementação da nova legislação, ainda editou decretos que suprimiram direitos trabalhistas históricos, gerando denúncias formais contra o seu governo na OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Portanto, ouvir e ver a manifestação de Milei reforçou a necessidade de que todos nós, sempre — e não apenas durante os períodos eleitorais —, reconheçamos a diferença entre homens públicos que dedicaram sua vida à construção de uma sociedade que defende a democracia multirracial, baseada na reconciliação, na igualdade de direitos e na justiça social, e aqueles que fazem discursos que buscam fragilizar instituições democráticas, promovem a polarização social e pretendem reduzir o papel do Estado na proteção das minorias e dos direitos sociais básicos de todos.
Nós, trabalhadores, precisamos fazer essa diferenciação.
Precisamos de mais Martins e menos Mileis.

*Gelson Santana
Presidente do STICC

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