Sábado, 25 de Abril de 2026

Home Saúde Dismorfia corporal: relatos de obsessão com a própria aparência crescem nas redes sociais

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A dificuldade de lidar com a própria imagem refletida no espelho pode ser mais preocupante do que apenas algo derivado da vaidade. Na realidade, a obsessão com defeitos que não são observados por outras pessoas (ou não existem) e a necessidade persistente de mudanças são indicativos de dismorfia corporal, uma condição psiquiátrica grave.

Oficialmente chamado de transtorno dismórfico corporal, esse quadro tem o potencial de abalar todos os pilares da autoestima e afetar gravemente a saúde mental. Para quem convive com a condição, nem mesmo um físico atlético, considerado “ideal”, é o bastante. O campeão olímpico de saltos ornamentais Tom Daley, de 31 anos, agora aposentado do esporte, abriu o coração no ano passado sobre o diagnóstico de dismorfia corporal. A pressão que a imagem de si mesmo exercia foi um dos grandes motivos de sofrimento psíquico da sua carreira como atleta.

Outra figura pública que também conviveu a vida inteira com o transtorno é o ator Sebastian Stan, conhecido por seu papel como Soldado Invernal na saga do Capitão América nos filmes da Marvel. Segundo Stan, de 43 anos, ele sentia que seu corpo apenas mantinha o “auge” por uma semana, enquanto se esforçava para manter a rotina de exercícios físicos e alimentação. Passado esse período, ele voltava a se sentir “insuficiente”.

Nas redes sociais, relatos de pessoas que afirmam ter desenvolvido insatisfação corporal ao se sentirem pressionadas pelos ideais corporais do mundo fitness ganham cada vez mais tração. No TikTok, a hashtag #dismorfiacorporal acumula mais de 150 mil vídeos.

Entre eles, está o de Ranaísis Azenha, de 20 anos. A estudante de Nutrição decidiu compartilhar o que estava vivendo na plataforma de vídeos. Atualmente acompanhada por profissionais da saúde, ela acredita que é possível buscar evolução física sem se autodestruir.

“Quando comecei a treinar, minha motivação não era saudável. Eu queria mudar meu corpo rapidamente a todo custo, tentando compensar excessos e ter controle. Os sintomas começaram ainda durante a pandemia, junto com o transtorno alimentar. Eu me olhava no espelho e não conseguia enxergar meu corpo de forma realista. Sempre parecia que eu precisava emagrecer mais e mais”, relata.

A jovem brasiliense também afirma que o ambiente das redes sociais também serviu como amplificador.

“Era uma distorção constante da minha própria imagem, acompanhada de comparação excessiva e sensação de nunca ser suficiente”, conta.

Juliana Lopes Fernandes Massapust Pestana, doutora em Neurociências pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que nem toda insatisfação é, de fato, o transtorno dismórfico corporal.

“De um lado, temos uma subnotificação de casos de dismorfia corporal no Brasil, do outro temos o uso do termo para descrever o que, muitas vezes, trata-se de inseguranças com o próprio corpo causadas pela pressão estética”, esclarece.

De acordo com Pestana, a principal forma de diferenciar as duas coisas são as consequências do transtorno na vida das pessoas acometidas por ele. Estimativas internacionais apontam que ele atinge cerca de 2% a 3% da população.

“O transtorno vai trazer prejuízos de forma significativa. Em primeiro lugar, isso ocorre porque a obsessão com a aparência tem uma intensidade acima da média. Essa pessoa fica muito preocupada com a maneira como é vista, então isso prejudica muito a forma como ela se relaciona com outras pessoas. Ela nunca vai estar satisfeita consigo mesma, e isso pode afetar também o trabalho”, enumera.

Alguns sinais e sintomas que podem indicar um sinal de alerta são:

“Comportamentos repetitivos, como sempre estar se olhando no espelho, tratamentos e procedimentos em excesso, modificações corporais, uso de roupas muito largas que possam ocultar alguma falha. Em casos mais graves, quando chegam ao consultório, geralmente essas pessoas já fizeram tantas intervenções estéticas que acabam perdendo suas características originais”, diz.

Dismorfia muscular

No mesmo cenário de relatos como os de Tom Daley e Sebastian Stan, muitos homens são afetados pela vigorexia, termo que descreve o transtorno dismórfico corporal com especificador de dismorfia muscular, que é o desejo obsessivo de se tornar mais forte, ao mesmo tempo que o indivíduo nunca se enxerga como tal.

“Nesse caso, a musculação não é mais prazerosa. Esse homem pode deixar de sair, de ter relações por conta da sua forma física e desenvolver crenças cognitivas de que é pequeno, fraco, inadequado e que vai ser rejeitado. Pode chegar até mesmo a sofrer lesões mais severas pela musculação muito pesada e também desenvolver problemas fisiológicos pelo uso de anabolizantes”, aponta.

Um estudo publicado na revista científica Performance Enhancement & Health em 2025 mostrou que a alta exposição a conteúdo fitness nas redes sociais e a paixão obsessiva por treinar podem ser fatores de risco potenciais para o desenvolvimento de sintomas de dismorfia muscular. Para a pesquisa, foram analisados dados de 502 participantes entre 16 e 30 anos. (Com informações do jornal O Globo)

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