Domingo, 03 de Maio de 2026

Home Saúde Doença paralisa médica brasileira, mas inteligência artificial reproduz sua imagem, voz e até o jeito de falar

Compartilhe esta notícia:

Médica psiquiatra e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Maria Inês Quintana perdeu todos os movimentos do corpo após ser diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica (ELA) – apenas seus olhos se movimentam. Mas já está voltando a atender pacientes e a lecionar, com ajuda da inteligência artificial (IA).

“Como vocês podem ver, meu corpo decidiu seguir um ritmo diferente do meu cérebro.” Foi assim que a paciente, de 55 anos, abriu uma das suas palestras mais recentes. Com um detalha: a frase era dela, mas as palavras saíram da “boca” de um avatar da médica feito com IA, como uma “gêmea digital” programada para simular sua imagem, voz e até o jeito de falar. Em breve, a ferramenta deverá ser capaz de reproduzir parte de seu conhecimento científico.

A Inês “de carne e osso” perdeu a fala e os movimentos de quase todos os músculos do corpo por causa da doença neurodegenerativa, incurável e que leva à morte progressiva dos neurônios motores. O diagnóstico é de 2023, quando Inês estava no auge da carreira. Psiquiatra de referência em transtornos da personalidade, atuava como professora, liderava unidade especializada nesse tipo de transtorno e coordenava pós-graduação em saúde mental, além de atender pacientes em consultório particular.

Apenas seis meses depois de descobrir a doença, Inês estava totalmente paralisada, sem a fala e com uma traqueostomia para poder respirar, uma vez que os músculos envolvidos nessa função já haviam sido afetados. “No caso da Inês, a progressão foi rápida, aguda”, conta o neurologista Acary Souza Bulle Oliveira, responsável pelo diagnóstico.

“A doença afeta a via motora, mas a parte cognitiva fica 100%, o que faz a pessoa chegar a um quadro que nós chamamos de encarceramento. Ela fica presa dentro de si mesma”, explica Roberto Dias, fisioterapeuta especializado no cuidado a pacientes com a doença e que atende Inês.

Ao perder totalmente os movimentos, o corpo de Inês ficou em total descompasso com uma mente inquieta e curiosa, sempre envolvida em projetos de pesquisa, congressos científicos e atividades docentes. Ao perder a fala, uma de suas maiores preocupações era como ficariam os pacientes que havia deixado de atender, a maioria com quadros psiquiátricos complexos.

Foi quando o fisioterapeuta e amigo passou a usar ferramentas de IA para recriar a voz perdida. Ele usou áudios enviados por ela antes da doença e vídeos de palestras dadas pela psiquiatra para então clonar voz e imagem de Inês.

Inês se comunica hoje graças a um equipamento chamado “Tobii”, que utiliza tecnologia de rastreamento ocular, permite que a pessoa use o movimento dos olhos para executar comandos em uma tela de computador. É como se a pessoa “digitasse” com os olhos. Foi assim que Inês escreveu o conteúdo da palestra.

“A primeira vez que vi meu avatar, chorei feito bebê, parecia magia, mas teve também a primeira vez que escutei minha voz na aula de psicologia. Estar entre colegas apresentando nosso projeto de pesquisa foi um prazer enorme”, diz ela sobre a emoção de voltar a dar aula.

A iniciativa despretensiosa de Beto e Inês cresceu, se profissionalizou e virou um projeto de pesquisa. No final de 2025, o também psiquiatra Fabio Gastal, diretor acadêmico da Faculdade Unimed e amigo de Inês, ao observar o esforço e o desgaste necessários para que a colega “escrevesse” com os olhos o conteúdo de uma aula ou palestra, pensou se não haveria uma forma de usar ferramentas mais avançadas de IA para facilitar as coisas.

“Seria um conceito de gêmeos digitais ou avatares, que vão substituir essa interação com os alunos, com os professores, com os pacientes, para a Inês poder ter uma atividade menos desgastante nesse processo de preparação”, explica.

A ideia, portanto, seria não só replicar a imagem e a voz da médica, mas treinar algoritmos com a produção científica e acadêmica da especialista e com manuais médicos da área de psiquiatria para que a IA trouxesse também o conhecimento acumulado por Inês nos 30 anos de profissão.

Futuro próximo

Iniciado o projeto oficialmente em março, a ideia é de que no ano que vem sejam avaliados os resultados. Também deve ser considerada a viabilidade de se replicar a ferramenta para outros pacientes que, da mesma forma que Inês, têm limitações motoras mas a capacidade cognitiva preservada.

O custo é estimado em cerca de R$ 5 milhões, no entanto já se apresentaram como primeiros investidores a empresa Unimed de Campinas (SP) e de Belo Horizonte (MG). A coordenação institucional e científica é da Fundação Unimed, que busca agora recursos de agências de fomento à pesquisa para desenvolver todas as etapas do projeto. (com informações do jornal O Estado de S. Paulo)

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Saúde

Vintage ou retrô: você sabe qual é a diferença? Entenda
Come, mas logo sente fome? O problema pode estar no pico de glicemia
Deixe seu comentário
Baixe o app da RÁDIO Pampa App Store Google Play
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa Pampa Saúde