Terça-feira, 12 de Maio de 2026

Home Colunistas Educação sexual: afinal, existe o momento certo para falar sobre sexualidade com os filhos?

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Tem perguntas que deveriam vir com aviso sonoro antes de serem feitas. A cena clássica acontece mais ou menos assim: domingo, família reunida na sala, todo mundo olhando televisão, alguém mastigando pipoca… e, do absoluto nada, a filha mais nova solta: — Mamãe… o que é sexo?

Silêncio. O pai se engasga. A mãe finge que não ouviu. O cachorro levanta a cabeça. E o irmão mais velho desaparece misteriosamente do ambiente. Cinco segundos depois vem a continuação do pacote premium de desespero:

— Como eu fui parar na barriga da mamãe? Por que os meninos têm pitico e as meninas têm pepeca? E é exatamente nesse momento que muitos pais descobrem que têm pós-graduação, financiamento, imposto de renda… mas não fazem ideia de como responder a uma criança de seis anos sem começar a suar frio.

Durante muito tempo, muitos pais escaparam dessas perguntas apelando para a famosa cegonha. E convenhamos: quase todo adulto lembra dos desenhos antigos, do bebê chegando enrolado num pano branco, carregado pela ave mais trabalhadora da história. Era inocente, divertido e fazia parte da infância de muita gente. Mas os tempos mudaram. Hoje, as perguntas chegam mais cedo, mais rápidas e muito mais difíceis de driblar.

A verdade é que educação sexual ainda assusta muita gente. Talvez porque muitos adultos nunca receberam orientação saudável sobre o assunto. Cresceram ouvindo que sexo era pecado, vergonha, assunto proibido ou aquele tema que “a gente fala depois”.

O problema é que o “depois” chega… e geralmente chega no pior momento possível. No supermercado. Na fila da farmácia. No almoço da família. Mas falar sobre sexualidade com os filhos é muito mais amplo e profundo do que explicar o ato sexual. É ensinar sobre o próprio corpo. Sobre respeito. Sobre consentimento, privacidade. Toques permitidos e abusivos e autocuidado.

Porque crianças e adolescentes precisam aprender que o corpo deles merece proteção, respeito e informação. E talvez uma das maiores dificuldades dos pais seja imaginar que precisa existir “A Conversa”. Aquela cena formal, quase empresarial:

— Filho, hoje precisamos conversar sobre um tema muito sério… Pronto. O adolescente já quer evaporar pela parede. Depois de muitos atendimentos com crianças e adolescentes, eu acredito muito mais nas pequenas conversas do cotidiano. Elas funcionam melhor, assustam menos e aproximam mais. A novela mostrou uma situação? Aproveita. Surgiu uma notícia? Converse. Um vídeo viralizou? Pergunta o que ele pensa sobre aquilo.

Às vezes, a criança pergunta “de onde vêm os bebês” e os pais já querem abrir um PowerPoint completo sobre reprodução humana. Calma. A estratégia é justamente responder dentro do tamanho da curiosidade deles. Muitas vezes, eles não querem uma aula de biologia. Querem apenas entender um pedaço da história. Por isso, gosto muito de orientar os pais a responderem com outra pergunta:

— O que você quer saber exatamente? — Onde você ouviu isso? — O que você acha que é? Porque entender de onde vem a dúvida também ajuda a entender por onde seu filho está circulando. Foi algo da internet? Um amigo? Um vídeo? Uma situação que viu? E convenhamos: hoje, se os pais não falam, a internet fala. E a internet fala cedo, fala alto e, muitas vezes, fala de forma não educativa. Por isso, a educação sexual nas escolas é importante, sim. Mas ela não substitui o papel dos pais. A escola informa. A família transmite valores, acolhimento, segurança emocional e abertura para o diálogo.

Outro ponto importante é a puberdade. Quando começam as mudanças corporais, surgem inseguranças, comparações e muitas dúvidas silenciosas. Levar o filho ou a filha a consultas com ginecologista ou urologista não deveria ser visto como exagero, mas como cuidado e orientação preventiva. E, talvez, o mais importante de tudo seja isto: não feche o canal de diálogo. Seu filho não precisa de um pai perfeito. Precisa de um pai disponível. De uma mãe que não transforme perguntas em vergonha. De adultos que consigam dizer: “Eu não sei te responder isso agora, mas vamos entender juntos”.

Porque a forma como falamos sobre sexualidade com nossos filhos começa antes deles. Começa em nós. Na maneira como enxergamos o corpo, o afeto, o respeito e o valor das relações. No fim das contas, educação sexual não é ensinar crianças a fazer sexo. É ensinar crianças e adolescentes a não crescerem perdidos dentro do próprio corpo, dos próprios limites e dos próprios sentimentos. E, talvez, essa seja uma das conversas mais importantes que uma família pode ter. Mesmo que ela comece no meio da sala… entre uma pipoca e outra.

Porque, no fim, crianças sempre vão procurar respostas. Com a família ou com o mundo. Então, evitem “mini infartos”, a ideia é que vocês estejam preparados para este assunto que servirá de lição para o resto da vida dos seus filhos. Serão adultos mais conscientes, mais seguros, sem culpa, sem medo e sem preconceitos sobre a própria sexualidade.

* Tatiane Dias Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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