Segunda-feira, 25 de Maio de 2026

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A atual escalada de tensões envolvendo o Irã deixou de ser um fenômeno regional para se tornar o epicentro de uma transformação tectônica na geopolítica global. O que testemunhamos hoje é a cristalização do “Eixo do Caos”: uma colaboração estratégica e letal entre Irã, Rússia, China e Coreia do Norte para desafiar a ordem liderada pelo Ocidente. Esta aliança, embora careça de uma base ideológica homogênea, encontra coesão em um objetivo pragmático: o desmantelamento das normas internacionais em favor de um sistema onde a impunidade autoritária seja a regra.

Trata-se de uma simbiose puramente transacional. Enquanto o Irã fornece enxames de drones para a guerra de exaustão russa na Ucrânia, Moscou retribui com tecnologia militar sensível e cobertura diplomática no Conselho de Segurança da ONU. Esse intercâmbio cria um laboratório de guerra em tempo real, onde táticas para sobrecarregar defesas ocidentais são testadas e refinadas. A Rússia, que antes buscava o equilíbrio no Oriente Médio, agora atua como o escudo de Teerã, garantindo que o isolamento internacional seja mitigado por um cordão umbilical que liga os regimes autoritários.

Nesse cenário, a China atua como a arquiteta econômica e garantidora de última instância. Ao absorver o petróleo sob sanções, Pequim fornece o oxigênio financeiro para que esses regimes ignorem a pressão ocidental. Para a China, o caos no Oriente Médio e na Europa serve como uma distração estratégica ideal para drenar recursos e a atenção dos Estados Unidos. Paralelamente, a Coreia do Norte opera como o arsenal de retaguarda, enviando milhões de cartuchos de munição para a Rússia em troca de assistência tecnológica que acelera seus próprios programas de destruição em massa.

A grande falha da análise ocidental tem sido tratar os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio como crises isoladas. Essa visão compartimentada é obsoleta. As ambições de Putin e Khamenei estão intrinsecamente conectadas, o sucesso da colaboração autoritária em um teatro de operações valida e incentiva a agressão em outros. O “isolamento” desses regimes tornou-se um mito geográfico: eles criaram um mercado negro global de armas e finanças que opera fora do alcance das instituições tradicionais.

O Ocidente precisa urgentemente de uma estratégia integrada. Enfrentar esses regimes de forma isolada é lutar contra sintomas de uma patologia sistêmica. É necessária uma abordagem holística que reconheça que as sanções contra o Irã falham se a China continuar sendo seu banqueiro, e que o apoio à Ucrânia é, essencialmente, uma forma de conter a expansão iraniana. A dissuasão não pode mais ser regional, deve ser global, exigindo uma revitalização das alianças democráticas que alcance a resiliência das cadeias de suprimentos e a segurança tecnológica.

O sucesso do Eixo do Caos aposta no cansaço e na divisão das democracias liberais. O reconhecimento de que estamos diante de um desafio sistêmico é o primeiro passo para evitar que essa colaboração transacional se torne a nova arquiteta do destino mundial. A interconectividade das ameaças exige uma interconectividade das respostas, o que ocorre hoje em Teerã ou Gaza repercute diretamente no campo de batalha de Donetsk e na estabilidade do Estreito de Taiwan. O tempo de tratar essas crises como incêndios distantes terminou, são frentes de uma única conflagração global contra a ordem democrática.

  • Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

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