Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026

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No artigo anterior compartilhei minha trajetória pessoal, marcada pela timidez e pelo aprendizado da cooperação. Agora, quero dar continuidade a essa reflexão, mas com foco no tema que considero central para esta coluna: a transição energética. Meu objetivo é chamar a atenção para a necessidade urgente de sustentabilidade do planeta e para a geração de energia elétrica limpa, descentralizada, sobre os telhados, dando independência aos brasileiros.

Vivemos um momento em que a modernização da rede elétrica se torna tão necessária quanto foi, em seu tempo, a expansão das estradas ou a implantação da fibra ótica da internet. Parecia impossível conectar o país inteiro, mas conseguimos. Agora chegou a hora da energia livre. Este é o fio condutor que pretendo desenvolver ao longo dos artigos, sempre a partir da minha própria experiência e vivência, articulando uma visão que permita ao leitor compreender melhor o funcionamento do sistema.

Ao falar de cooperação, percebo que minha vida profissional foi marcada por tentativas de parcerias que muitas vezes falharam. Aliás, continuo falhando, pois ainda não encontrei a receita correta — se é que ela existe. Para entender melhor esse desafio, busquei apoio na literatura. Encontrei no livro Lições de Dança, escrito por autores como Don Miguel Ruiz e Mary Carroll Nelson, uma metáfora poderosa: a dança como exemplo de parceria. Um casal entrega confiança um ao outro e, em perfeita sintonia, executa algo incrível — uma performance sincrônica e harmônica. Essa imagem me ajudou a compreender que a cooperação exige entrega mútua, confiança e ritmo compartilhado.

Como economista, estudei princípios filosóficos da economia que colocam o interesse pessoal como fonte primordial da motivação econômica. Adam Smith, em A Riqueza das Nações, defendeu que o indivíduo, ao buscar seu próprio benefício, acaba promovendo o bem coletivo, ainda que de forma indireta. Essa ideia de que o individualismo é motor da economia sempre me intrigou. Mas venho me questionando: será que tudo não passa de um jogo ou distração? Acumular riquezas, bens e capital seria realmente o significado de viver uma vida? É nesse ponto que volto ao espírito da cooperação, como alternativa e complemento ao individualismo.

Minhas viagens ao norte do Brasil, especialmente à região amazônica, trouxeram novos elementos para essa reflexão. Estive quatro vezes junto a povos que têm uma relação diferente com o coletivo. Ali, a palavra “coletivo” é usada de forma fluida, sem o viés político que muitas vezes carregamos no sul. Aqui, quando alguém fala em coletivo, logo se interpreta que essa pessoa não compartilha da mesma crença ideológica. Lá, o termo é mais natural, menos carregado. Além disso, percebi que palavras como “saberes” e “ancestralidade” estão muito mais enraizadas do que em nossa cultura. Isso lhes dá um olhar diferente para a cooperação, talvez mais orgânico, talvez mais conectado à terra e à história. Ou será apenas uma interpretação minha? Talvez sejam tão individualistas quanto nós, mas expressam de outra forma.

Essa vivência me fez pensar que a transição energética não é apenas uma questão técnica ou econômica. É também cultural. Precisamos de uma rede elétrica moderna, sim, mas também de uma nova consciência coletiva. Assim como os povos do norte valorizam saberes e ancestralidade, nós precisamos valorizar a sustentabilidade e a independência energética como parte de nossa identidade.

A cooperação, nesse contexto, é mais do que uma filosofia: é uma prática que pode transformar a sociedade. Mas ela exige confiança, entrega e sintonia — como na dança. Exige também que questionemos os fundamentos da economia, que não nos deixemos distrair apenas pelo acúmulo de bens, e que aprendamos com diferentes culturas a enxergar o coletivo de forma menos ideologizada e mais humana.

Não tenho conclusões definitivas. Talvez a cooperação seja apenas uma utopia, talvez o individualismo continue sendo o motor principal da economia, talvez os povos do norte não sejam tão diferentes de nós. Mas acredito que refletir sobre esses pontos é essencial para que possamos construir um futuro energético mais livre, sustentável e justo.

Deixo ao leitor a tarefa de decidir por si: será que estamos prontos para dançar juntos essa coreografia da energia livre?

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

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