Domingo, 08 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 7 de fevereiro de 2026
Por quase três décadas, o zolpidem foi vendido como o comprimido da noite perfeita. Bastava engolir o remédio minutos antes de deitar, e o sono vinha rápido, profundo e restaurador — ou, pelo menos, era o que prometiam as bulas e campanhas médicas.
Mas o que começou como solução para a insônia virou um problema de saúde pública: o uso indiscriminado do medicamento e de seus semelhantes — as chamadas drogas Z — tem provocado dependência química, crises de abstinência e até delírios em pacientes que, muitas vezes, começaram o tratamento sem saber dos riscos.
Especialistas das áreas de neurologia, psiquiatria, psicobiologia e medicina do sono publicaram um consenso sobre o uso de medicamentos como o zolpidem, sedativo-hipnótico indicado para casos de insônia.
Encabeçado pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e divulgado na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria, o documento classifica o crescente uso das chamadas “drogas Z”, como zolpidem e zaleplon, como um problema de saúde pública.
A diretriz aponta que o zolpidem é o terceiro hipnótico mais vendido do País, atrás apenas de clonazepam e alprazolam, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Entre 2014 e 2021, o medicamento registrou um aumento de 139% no volume de vendas, passando de 338.367 para 810.353 caixas.
A venda irregular do fármaco foi um dos fatores que impulsionaram a elaboração do documento. De acordo com os autores, o zolpidem está entre os medicamentos mais frequentemente comercializados sem receita ou de forma ilegal no Brasil.
Coordenador do Departamento Científico de Sono da ABN e um dos autores da diretriz, Paulo Afonso Mei afirma que a pandemia também contribuiu para o aumento do consumo do medicamento, especialmente devido ao crescimento dos diagnósticos de transtornos relacionados à saúde mental.
“Essa é uma percepção muito clara na comunidade médica, houve uma explosão desses diagnósticos. Em estudos próprios, também constatei um aumento de cerca de 40% na proporção de pacientes com queixas relacionadas a problemas do sono”, diz Mei.
Outro fator apontado pelo especialista que pode ter impulsionado o consumo do medicamento no período foi a ampliação das prescrições digitais, adotadas especialmente durante as medidas de distanciamento e isolamento social.
Maior controle
Diante da alta no consumo, a Anvisa implementou no último ano um controle mais rígido para a venda do zolpidem, com maior fiscalização das prescrições e notificação com receita azul. Segundo Mei, a medida ajudou a frear o avanço. “Foi a única ação de maior impacto que realmente se mostrou eficaz para conter um pouco as prescrições”, afirma.
O zolpidem começou a ser comercializado nos anos 1990 e ganhou popularidade por apresentar efeitos colaterais considerados mais leves do que os de outros psicotrópicos, como clonazepam e alprazolam.
No entanto, à medida que se popularizou, também aumentaram os casos de dependência. Nas redes sociais, não é difícil encontrar relatos de pessoas que dizem depender do medicamento para conseguir dormir.
Mei explica que, desde o lançamento, o zolpidem traz na bula a orientação de que deve ser utilizado por, no máximo, quatro semanas consecutivas. “Mas isso raramente é respeitado”, lamenta. Ao prescrever, precisamos ter a preocupação de não permitir que o paciente faça uso por longos períodos.”
Outros vídeos relatam efeitos colaterais como sonambulismo. O especialista explica que isso ocorre porque o medicamento pode provocar um comportamento amnésico, levando a ações das quais o usuário não se recorda e que podem resultar até em ferimentos. Há relatos, inclusive, de pacientes que cometeram ilegalidades sob efeito da substância, o que reforça a gravidade do problema, afirma.
Apesar de antigo, o medicamento continua sendo eficaz para casos de insônia aguda, mas não é indicado para uso crônico, como tem ocorrido com frequência, diz o especialista.
Ele acrescenta que os pacientes que buscam ajuda médica geralmente apresentam insônia crônica, com dificuldade para iniciar ou manter o sono e insatisfação com a qualidade do descanso por mais de três meses. Já a insônia aguda costuma ser pontual e surgir em situações que provocam tensão ou nervosismo. (As informações são do g1 e O Estado de S. Paulo)