Sábado, 15 de Agosto de 2026

Home em foco Estados Unidos adiam demonstração de força militar inédita perto do Brasil; bombardeiros B-52 chegaram a decolar, mas missão foi postergada

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O governo de Donald Trump pretendia coroar sua declaração em defesa do domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina com uma demonstração de força militar inédita, empregando bombardeiros pesados B-52 com apoio dos aliados Chile e Argentina, mas ela foi adiada na terça-feira (11).

A ação coincidiria com a publicação, pelo Departamento de Estado americano, de uma mensagem na qual era exaltada a Doutrina Monroe, que desde o século XIX define a América Latina como zona de influência exclusiva de Washington.

Ela foi atualizada, segundo a releitura de Trump, na Estratégia de Segurança Nacional publicada no fim de 2025, servindo de arcabouço teórico para a renovada agressividade americana na região —como a captura do ditador Nicolás Maduro e a transformação da Venezuela em um Estado cliente dos EUA mostrou.

Segundo um diplomata com conhecimento do assunto nos EUA, o governo Trump quis demonstrar alinhamento com seus seguidores ideológicos na América do Sul, em oposição ao crescente mal-estar com o governo Lula (PT) no Brasil.

Essa é a percepção também de membros do governo brasileiro ouvidos pela reportagem. É a mais aberta sugestão de pressão militar dos EUA contra o Brasil na atual crise. Questionada pela Folha de S. Paulo, a embaixada dos EUA em Brasília não comentou o caso.

Poder de fogo

Pelo plano inicial, três bombardeiros estratégicos com capacidade para ataques nucleares B-52H Stratofortress voariam de sua base em Minot, na Dakota do Norte, para o Chile e a Argentina. Lá, seriam acompanhados por aviões de reabastecimento e caças dos dois países governados por aliados de Trump.

A viagem seria apoiada, no caminho até o Cone Sul, por sete aviões-tanque baseados em MacDill, na Flórida. Mas uma falha ainda não confirmada em um desses KC-135 Stratotanker, segundo o site chileno Zona Defensa, acabou fazendo com que todas as aeronaves retornassem a seu ponto de partida, cerca de seis horas e meia após a primeira decolagem.

Segundo o Comando Sul das Forças Armadas dos EUA, a missão “foi postergada devido a outras exigências operacionais”, sem detalhar o motivo. Como é sugerido, ela ainda deverá acontecer.

Os itinerários das aeronaves, que estavam com seus sistemas de localização ligados, foram acompanhados por sites de monitoramento de tráfego aéreo. Por sua natureza, uma operação dessas requer planejamento de no mínimo uma ou duas semanas dada a coordenação regional.

O voo dos B-52 estava previsto para durar até 29 horas, sem pouso na região, e a missão entrava no escaninho BTF (Força-Tarefa de Bombardeiros, na sigla inglesa), operações de deslocamento rápido de amplo poder de fogo.

Os chilenos têm 46 caças americanos F-16, dez deles comprados novos dos EUA nos anos 2000, além de 3 KC-135 de reabastecimento. Já o governo de Javier Milei fez a primeira compra de renovação de sua Força Aérea no ano passado, quando adquiriu 24 F-16 de modelo A/B, mais antigos, da Dinamarca.

Aliados de Trump

A presença em si dos B-52 no continente não é inédita, e sim o grau de engajamento com dois aliados fora de um exercício multinacional —que são rotineiros, como no caso da manobra Salitre-2026, realizada no Chile no mês passado com seis Aeronáuticas, inclusive EUA e Brasil. Além disso, nunca os bombardeiros voaram tão ao sul do continente.

Em 2016, por exemplo, dois bombardeiros operaram em coordenação com a Colômbia. Em 2020 e 2024, os gigantes com oito motores participaram de manobras conjuntas na região. Já em 2025, voos com os B-52 fizeram parte da estratégia de pressão sobre a Venezuela que culminou com a captura de Maduro em janeiro.

A missão dos bombardeiros poderia ter ocorrido se tudo estivesse calmo na seara política, mas o timing chamou a atenção de oficiais da Força Aérea Brasileira ouvidos pela reportagem. A Aeronáutica não foi informada da manobra porque ela não utilizaria o espaço aéreo nacional.

A relação entre EUA e Brasil está em sua pior fase na história. Trump sobretaxou importações de produtos brasileiros e, como forma de pressionar pela confirmação da indicação feita sem consulta prévia do novo embaixador em Brasília, cassou o visto da representante do Brasil em Washington.

Adensando o enredo, a China, rival estratégica número 1 dos EUA, demonstrou apoio a Lula e pediu para integrar a ação brasileira sobre o caso na Organização Mundial do Comércio. A pedra angular da retomada da Doutrina Monroe sob Trump é buscar reduzir a influência de Pequim, maior parceiro comercial da América Latina, na região.

Segundo o Datafolha, 52% dos brasileiros veem no tarifaço uma medida para favorecer o senador Flávio Bolsonaro, mas Lula ainda não colheu frutos de sua campanha pela soberania como no atrito análogo em 2025. (Com informações da Folha de S. Paulo)

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