Segunda-feira, 13 de Julho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 12 de julho de 2026
Durante anos, mulheres na menopausa que sofrem com infecções urinárias recorrentes receberam praticamente sempre o mesmo tratamento: um ciclo de antibióticos atrás do outro. Agora, um novo estudo com quase 2 milhões de mulheres traz mais evidências de que tratar apenas a infecção pode não ser suficiente. A pesquisa associou a prescrição de estrogênio vaginal a um menor risco de novas infecções urinárias, hospitalizações, sepse e até mortalidade relacionada à infecção em mulheres na peri e na pós-menopausa.
Os resultados não significam que o estrogênio vaginal substitua os antibióticos nem comprovam uma relação direta de causa e efeito. Mas reforçam o que especialistas em menopausa já vêm observando há anos: a queda do estrogênio modifica profundamente a saúde da vagina e do trato urinário, favorecendo infecções de repetição.
“A diminuição do estrogênio modifica o revestimento da vagina e do trato urinário, além de alterar a microbiota, o ambiente fica modificado e favorece a ocorrência de infecções urinárias”, explica a ginecologista Lucia Helena Simões da Costa Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). “Quando tratamos com o estrogênio vaginal, restabelecendo o epitélio e o ambiente, faz sentido reduzir as infecções.”
O que é a síndrome geniturinária da menopausa (SGM)?
Quando se fala em menopausa, a maioria das mulheres pensa imediatamente em ondas de calor, insônia ou alterações de humor. Mas existe outra consequência extremamente comum da queda hormonal que ainda recebe pouca atenção: a síndrome geniturinária da menopausa.
Ela engloba sintomas como ressecamento vaginal, coceira, ardor, dor durante as relações sexuais, urgência para urinar, aumento da frequência urinária e infecções urinárias recorrentes.
Segundo Lucia Helena, cerca de 70% das mulheres desenvolvem a síndrome durante a peri ou a pós-menopausa, mas nem todas recebem o tratamento adequado. “O problema é que muitas têm vergonha de falar sobre esses sintomas até mesmo com seus médicos. Ela acabam trazendo o assunto somente quando quando o especialista pergunta”, afirma.
Embora muitas mulheres convivam com esses sintomas por anos, eles não fazem parte de um envelhecimento inevitável nem precisam ser simplesmente aceitos.
Por que a menopausa aumenta o risco de infecções urinárias?
A explicação está na própria biologia da menopausa. O estrogênio ajuda a manter o revestimento da vagina e da uretra espesso e saudável. Também favorece a presença dos lactobacilos, bactérias benéficas que mantêm o PH vaginal mais ácido e dificultam a proliferação de microrganismos causadores de infecções.
Com a queda hormonal, esse equilíbrio se perde. O epitélio fica mais fino e frágil, os lactobacilos diminuem, o PH aumenta e bactérias, principalmente provenientes do intestino, encontram um ambiente muito mais favorável para colonizar a região urinária.
Por isso, muitas mulheres passam a apresentar infecções urinárias repetidas justamente após a menopausa.
Como o estrogênio vaginal ajuda a prevenir infecções urinárias?
É justamente nesse ponto que o estrogênio vaginal faz diferença. Ao contrário do antibiótico, que elimina a bactéria responsável pela infecção daquele momento, o estrogênio atua restaurando o ambiente vaginal e urinário alterado pela deficiência hormonal.
“O uso do estrogênio vaginal restabelece o epitélio e melhora todo esse ambiente”, explica Lucia Helena.
Com isso, a microbiota tende a recuperar seu equilíbrio, o PH volta a ficar mais ácido e a região readquire parte de sua proteção natural contra novas infecções.
Essa é justamente a hipótese reforçada pelo novo estudo, que encontrou associação entre o uso do tratamento e menor ocorrência de complicações relacionadas às infecções urinárias.
Estrogênio vaginal ainda tem baixa adesão
Apesar de seus benefícios já serem descritos há décadas, o estrogênio vaginal ainda tem baixa adesão de muitas pacientes, segundo Lucia Helena. “Muitas mulheres começam a usar e param, esquecem de usar, porque é algo que tem que tem que ser utilizado com frequência”, diz a médica. Por isso, se você está passando pelos sintomas da síndrome geritournária, é importante ter a prescrição e seguir à risca o uso do medicamento.
O novo estudo não inaugura esse tratamento. O que ele faz é reforçar uma mensagem importante: restaurar a saúde da vagina e do trato urinário pode ir muito além de aliviar o ressecamento. Também pode ajudar a prevenir um problema que afeta milhões de mulheres após a menopausa e que, em alguns casos, pode evoluir para complicações graves.
Talvez a principal contribuição da pesquisa seja justamente essa: lembrar que infecções urinárias recorrentes na menopausa nem sempre são apenas um problema de bactérias. Muitas vezes, elas começam com a queda do estrogênio. (Por Silvia Ruiz/Estadão)