Segunda-feira, 08 de Junho de 2026

Home Política Fadiga eleitoral desafia Lula, terceiro governante há mais tempo no poder

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A corridinha virou marca registrada da comunicação do presidente Lula (PT), 80. Em agendas oficiais, ele aperta o passo para ser flagrado pelas lentes de sua equipe, que logo posta a cena nas redes sociais. O petista também se deixa filmar quando faz exercícios, tática que tem sido usada para mostrar disposição e afastar as críticas à sua idade avançada.

Foi o que ocorreu, na semana passada, quando a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, postou imagens do marido malhando sem camisa às 6h da manhã. “Feriadão nesse pique”, dizia a legenda. Mas a questão etária é só parte do desafio. A longevidade de Lula reflete-se em uma extensa vida pública, o que agora provoca um fenômeno de fadiga de material, na avaliação de especialistas.

Lula é o terceiro governante que mais tempo permaneceu no poder, no Brasil. Até o fim de 2026, ele completará 12 anos na presidência, tempo equivalente a três mandatos. Considerando o Brasil Império, Lula perde para Dom Pedro 2º (49 anos) e Getúlio Vargas (18 anos). Aparecem depois do petista Dom Pedro 1º (10 anos) e Fernando Henrique Cardoso (8 anos).

Lula está no panorama político desde os anos 1980. Participou de sete das nove eleições presidenciais desde a redemocratização, em 1989. As exceções foram 2010 e 2014, quando emplacou Dilma Rousseff (PT) no Planalto; em 2018, não chegou a ter o nome nas urnas, porque estava preso e teve a candidatura barrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Em 2025, tornou-se o primeiro octogenário na Presidência da República. Já o PT governou o Brasil em 17 anos deste século 21. “O tempo por si só não é fator determinante para o desgaste, mas crises acumuladas pelo PT, como o mensalão e a Lava Jato, além do trabalho muito bem estruturado da oposição”, diz Paulo Loiola, consultor de marketing eleitoral, especializado no campo progressista.

Loiola avalia que a esquerda tem tido dificuldade de ampliar a comunicação digital, mesmo com ideias bem recebidas pela sociedade, como defesa da soberania nacional e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.

No marketing, fadiga de material é uma expressão que designa o esgotamento da força de determinado partido ou figura política. Segundo Lucas Pimenta, também consultor de comunicação eleitoral, a fadiga de Lula relaciona-se, sobretudo, a uma visão anacrônica das relações de trabalho.

“Lula não se comunica com um novo trabalhador brasileiro. Ele tenta trazer medidas populistas, mas isso não se reflete nos números de aprovação do governo, porque está desconectado dos novos anseios da população”, diz Pimenta.

Pesquisa Datafolha mostra que 38% avaliam o governo Lula negativamente, e 32%, positivamente. Ele é visto como o mais experiente pela maioria dos entrevistados, e o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45, é visto como o mais moderno e inovador. Neste ano eleitoral, o petista anunciou um pacote de bondades, incluindo o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas, o Gás do Povo e o Luz do Povo, para ampliar a oferta de luz e gás.

Agora tenta elevar à marca de seu terceiro mandato a aprovação do fim da escala 6×1 no Congresso. A maioria da população aprova a medida, que beneficiaria 37 milhões de brasileiros, segundo o governo.

Contudo, o especialista avalia que Lula não deu respostas aos segmentos que valorizam a autonomia e o empreendedorismo. Segundo Pimenta, a ausência de novidade se reflete, antes de tudo, no discurso do presidente, que tenta, desde a campanha de 2022, reavivar a lembrança dos dois primeiros mandatos.

Em outra frente, a imagem do petista se desgasta com as gafes que se acumulam e denotam certa inadequação com os novos tempos. Muitas delas têm como alvo o público feminino, a maior parcela do eleitorado. Há dois anos, Lula disse, em um evento, que mulher com formação não depende do pai para comprar batom e calcinha.

Também em 2024 afirmou ser inacreditável que os casos de violência contra a mulher aumentem depois de jogos de futebol. Em seguida, emendou: “Se o cara é corinthiano, tudo bem”. Pimenta identifica uma mudança arquetípica na imagem de Lula. Se nos dois primeiros mandatos notabilizou-se como pai dos pobres, agora tenta ser um herói, digladiando-se com o bolsonarismo. Segundo o especialista, a guerra ideológica pode cansar o eleitorado.

“O que marca o governo Lula 3 é uma guerra ideológica permanente. No lugar de se preocupar em criar marcas, ele se preocupa com a construção do arquétipo do herói”, afirma Pimenta. “Nos primeiros mandatos, ele dialogava com o Congresso, que agora é visto como inimigo do povo pela esquerda.” Com informações da Folha de S. Paulo.

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