Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2024

Home em foco Finlândia usou aulas de matemática e história para derrotar as fake news

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Quando a Rússia anexou a Crimeia em 2014, a Finlândia passou a conviver com uma onda de desinformação sem precedentes no país. Notícias falsas começaram a surgir nos diversos sites finlandeses e nas redes sociais para influenciar o debate público, levando o governo finlandês a agir para evitar que mentiras se espalhassem. A resposta foi encontrada na educação e, em 2016, a alfabetização midiática foi incluída no currículo escolar.

Como resultado, o país passou a ser considerado o mais resistente à desinformação entre as nações da Europa pelo estudo anual do instituto Open Society e virou uma referência mundial no combate às fake news. Enquanto países como Brasil e Estados Unidos passaram a sofrer com a disseminação das notícias falsas, a Finlândia se manteve resistente, com índices de confiança no governo de 71%, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em comparação, a média de confiança do estudo é de 41% (o Brasil não foi incluído no relatório).

No plano finlandês, a educação midiática passou a ser tratada em todas as disciplinas no ensino básico para desenvolver o pensamento crítico dos alunos. As aulas de matemática ensinam, por exemplo, como estatísticas podem ser distorcidas; em história, campanhas de propaganda são mostradas e os professores explicam como o uso de determinados elementos – palavras, imagens, metáforas – são usados para influenciar uma população.

Os alunos também são desafiados constantemente a pesquisar sobre determinados temas e apresentar fontes sólidas, na intenção de se tornarem “detetives digitais”. Há exercícios para que eles examinem alegações encontradas em vídeos de YouTube e em postagens veiculadas em redes sociais, compare o viés da mídia em uma série de notícias “clickbait” e investigue como a desinformação ataca as emoções dos leitores. Outra proposta é que os alunos tentem escrever notícias falsas.

Em uma entrevista concedida em 2020 ao jornal inglês The Guardian, o então diretor da escola franco-finlandesa em Helsinque, Kari Kivinen, afirmou que o objetivo do governo finlandês ao implementar a educação midiática foi criar cidadãos e eleitores críticos, proativos e responsáveis. “Pensar criticamente, verificar, interpretar e avaliar todas as informações que você recebe, onde quer que elas apareçam, é crucial. Fizemos disso uma parte central do que ensinamos, em todos os assuntos”, explicou.

A inclusão da educação midiática aconteceu em todos o período escolar básico, começando com as crianças e indo até os adolescentes. O objetivo não é fazer que todos os finlandeses desacreditem em tudo que é dito pela Rússia ou acreditem em tudo o que o governo finlandês diz, mas fazer com que a sociedade não aceite todas as informações de forma passiva.

Segundo Kivinen, hoje membro do grupo de combate à desinformação e promoção à educação digital da Comissão Europeia, que desenvolve políticas para toda a União Europeia nesta área desde outubro de 2021, o objetivo é que os alunos se perguntem: quem produziu a notícia? e por quê? há provas do que é dito ou se trata apenas de uma opinião? “Queremos que nossos alunos pensem duas vezes antes de compartilhar uma notícia”, resumiu.

Centro de pesquisa

Além da educação, outro pilar no combate à desinformação é a Agência Nacional de Suprimentos de Emergência. Neste ano, a agência criou um centro de pesquisa que foca na “resiliência da informação” para desenvolver, junto com empresas privadas e ONGs, estratégias de verificação de fatos e informações sobre campanhas de desinformação inovadoras.

O centro é um projeto piloto que vai seguir até 2024. Segundo Gwenaelle Bauvois, as novas estratégias visam, por exemplo, combater a desinformação veiculadas em jogos online. “O principal objetivo desta iniciativa é oferecer ferramentas e procedimentos ao público, às autoridades e aos meios de comunicação para enfrentar e combater a desinformação agora e no futuro”, declarou.

O centro foi criado depois que a agência identificou que a abordagem finlandesa para lidar com as notícias falsas também precisa se dar através de diversas cooperações para desenvolver competências de empresas, autoridades e organizações de comunicação social. O país conta com parcerias entre o governo, empresas privadas e ONGs para auxiliar no combate à desinformação, em trabalhos semelhantes aos desenvolvidos no Brasil pelas agências de checagem.

 

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