Domingo, 29 de Maio de 2022

Home Brasil Funerárias de Petrópolis não estão dando vazão para enterrar vítimas liberadas pelo Instituto Médico Legal

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As funerárias de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, não estão conseguindo absorver o volume de corpos liberados pelo Instituto Médico Legal (IML). No fim de sexta-feira (18), 15 corpos ficaram retidos porque o trabalho das funerárias não estava atendendo à demanda, segundo o secretário de Polícia Civil, delegado Allan Turnowski.

“A gente está com mais de 90 entes identificados. Estamos buscando as famílias para que elas venham aqui fazer a certidão de óbito e eles sejam enterrados. Ontem, infelizmente, as funerárias não conseguiram dar vazão a todos os corpos liberados. Foram 15 corpos que não conseguiram ser enterrados”, afirmou o secretário.

O Gabinete de Gestão de Incidentes da Polícia Civil vai começar a convocar nesta segunda-feira (21) familiares de vítimas desaparecidas. A ideia é cruzar o DNA dessas pessoas com o material genético de corpos não identificados.

“A partir de segunda-feira, com as digitais colhidas dos corpos não identificados, vamos chamar as família que tiveram seus entes desaparecidos e começar a colher o material genético para comparar com os corpos encontrados. É um trabalho muito grande, que envolve mais de 200 desaparecidos. É uma tragédia em Petrópolis, mas a gente está trabalhando para minimizar isso”, afirmou Allan.

Irreparável

Um casal aguardava no sábado (19) a identificação dos seus três filhos, que morreram soterrados no bairro Alto da Serra. Francisca Maranguape Silva, de 50 anos, ficou presa no trabalho por conta da chuva e não conseguiu chegar em casa. Já Fábio Machado Silva, 44 anos, estava com as crianças e sobreviveu mesmo após ser arrastado pelo deslizamento.

“Eram tudo pra mim, minha vida era eles. Minha vida, praticamente, acabou. Sou um morto-vivo agora. Quero só a força de Deus e do Espírito Santo para me consolar”, disse Fábio.

As crianças que morreram são: Stephanie Maranguape Silva, 11 anos; Daniel Maranguape Silva, 6 anos; e Mila Maranguape Silva, 13 anos.

A mãe conta que existe uma dificuldade maior para identificar os três porque a identificação está sendo feita por papiloscopia, que usa banco de dados de RGs.

Ainda com marcas da queda, Fábio contou que ouviu um barulho e a destruição aconteceu menos de um minuto depois. Ele chegou a voltar no local onde a casa fica, mas já não encontrou seus filhos.

“A chuva estava muito forte, eu não suspeitei de nada. Por volta das 16h15, um barulho muito grande veio do alto. Igual a trote de cavalo, fiquei desesperado. Meu instinto de pai falou mais alto e eu gritei: ‘Mila, Stephanie, Daniel’. A mais velha desceu a escada e eu fui pegar os três. Nós voltamos para escapar do desastre, só que a água aumentou e me jogou lá na casa da minha cunhada a 30 metros de distância. Antes de cair, eu falei ‘sobe, meus filhos’. Eu retornei pro local 20 minutos depois, mas já era tarde”.

A mãe das crianças, Francisca, contou que não consegue se alimentar desde terça-feira (15).

“Eu não como desde terça-feira. Tô só no suquinho, na água… mas Deus que está me mantendo em pé. Quando eu me deito, eu choro, porque eu não vou ver mais as minhas crianças, né? Eu adorava fazer as coisinhas, eram tudo pra mim”, contou.

“Daniel, uma semana antes, chegava na porta da cozinha e falava pra mim: ‘Mãe, eu te amo, o que eu faço pra te ajudar pra você ficar comigo, porque eu quero que você fique comigo’. Parece que ele tava adivinhando. E a Stephanie no domingo chorou muito, muito. Aí eu falei assim: o que essa menina tem? ‘Eu não sei, mamãe, eu não sei’. E a Mila nunca foi de fazer as coisas pra mim, aí nesse dia ela começou a fazer um monte de coisa pra mim. Parece que eles estavam adivinhando o que ia acontecer pra frente, isso não sai da minha cabeça”, completou.

Mutirão

A Polícia Civil conta com “um grande mutirão” para trabalhar em Petrópolis, na Região Serrana. São mais de 200 agentes que trabalham em turnos de 24 horas. “Aqui não para, são turnos de 24 horas. São mais de 200 pessoas trabalhando forte aqui para dar uma resposta e minimizar o sofrimento das famílias”, disse o secretário.

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