Terça-feira, 26 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 18 de fevereiro de 2024
General quatro estrelas tirado da cama cedo pela Polícia Federal é tudo o que o Exército não precisava. A Força, que teve parte de sua cúpula ocupando os principais postos da gestão de Jair Bolsonaro, acordou na semana retrasada sendo obrigada a sentir o gosto amargo de ter aderido ao capitão que um dia fora considerado indigno de vestir a farda.
A memória fez apagar o que, em 2021, o repórter Rubens Valente resgatou por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) no acervo do Exército. Deve-se ao jornalista a publicidade do “Noticiário do Exército” divulgado em 25 de fevereiro de 1988 e que trazia o título “A verdade: um símbolo da honra militar”.
O que está estampado na capa da publicação editada pelo Centro de Comunicação do então Ministério do Exército é lição de como a cartilha castrense preza a verdade e a hierarquia. Dito de outra forma, mentira e insubordinação são inadmissíveis na caserna. Se um subordinado mente, não pode estar ao lado dos seus. Numa guerra, como confiar a própria vida ao colega que não honra a palavra que dá? O ensinamento é levado às academias militares.
O episódio da década de 1980, para quem não se lembra, envolve o capitão Bolsonaro e um colega. Os dois deram entrevista à revista Veja e noticiou-se a ideia de um plano de explosão de uma bomba para causar tumulto. Bolsonaro era aquele que ousara reclamar publicamente dos baixos soldos ainda como militar. No mundo sem internet e redes sociais, falar à imprensa sem autorização do superior era conduta vedada nas Forças Armadas.
Um processo disciplinar foi aberto e Bolsonaro, condenado. Chamado a se explicar, mentiu para o comandante. E isso ficou registrado no texto do Noticiário do Exército para que toda a tropa soubesse que o comando estava naquele momento expulsando da Força o mentiroso. O mesmo que anos mais tarde subiria palanque usando texto bíblico falando da verdade que liberta.
O texto começa assim: “O cadete – futuro oficial do Exército –, ao ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras, recebe uma miniatura da espada de Caxias, declarando solenemente: ‘Recebo o sabre de Caxias como o próprio símbolo da honra militar’. Dentro dessa máxima é formado o oficial do Exército brasileiro”. O editorial destaca o culto a valores como honestidade, lealdade e amor à verdade. Na época, uma investigação concluiu que Bolsonaro e seu colega mentiram ao seu comandante. “Conscientemente (Bolsonaro e seu colega) faltaram com a verdade e macularam a dignidade militar”, diz o texto do Centro de Comunicação do Exército.
Supremo
Depois disso, o caso subiu ao Supremo Tribunal Militar (STM) e o capitão safouse, apesar de laudos no processo atribuírem a ele autoria de croquis de bombas, como revelou mais tarde o jornalista Luiz Maklouf Carvalho. Inocentado, ganhou de volta o direito de ser chamado de militar ainda que a decisão judicial tenha sido na contramão do que defendera o Ministério do Exército de então.
O salvo-conduto do STM deu a Bolsonaro álibi para voltar a ser recebido nos quartéis. Mas demorou um pouco até que a porta da frente lhe fosse aberta. Por anos, o capitão era só o parlamentar pouco expressivo do baixo clero. Mas ganhou as ruas e as redes, virou um político pop e o único com musculatura para derrotar o candidato petista em 2018.
Naquele ano, tinha chegado ao generalato uma geração que ouviu o capitão-deputado gritar por melhores soldos enquanto o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso arrochava as contas. O mesmo fora ao plenário defender a morte do então presidente, mas, por conta da imunidade parlamentar e irrelevância política na época, não foi punido.
Honra militar
As Forças são instituições de Estado e, teoricamente, não deveriam se inclinar na direção de legendas partidárias. A verdade que lecionam aos cadetes segue sendo o alicerce da formação da tropa. Em 1988, a mensagem já era clara: “O Exército tem, tradicionalmente, utilizado todos os meios legais para extirpar de suas fileiras aqueles que, deliberada e comprovadamente, desmerecem a honra militar. A verdade é um símbolo da honra militar”.
A operação da Polícia Federal do último dia 8 pode ser, para boa parte dos que viam Bolsonaro como Messias, perseguição política engendrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Mas há quem considere lamentável para a imagem das Forças Armadas o fato de que ex-comandantes e oficiais-generais tenham recebido visita da PF por terem, de fato, flertado com um golpe sob inspiração daquele que um dia foi chamado de indigno pelo Exército. As informações são de Francisco Leali, coordenador na sucursal do Jornal Estados de S. Paulo em Brasília.