Domingo, 29 de Março de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 28 de março de 2026
Há alguns anos, pesquisadores observam um padrão em estudos com pacientes oncológicos: aqueles que recebem imunoterapia pela manhã tendem a apresentar melhores resultados do que os tratados à tarde. Até recentemente, porém, as evidências eram majoritariamente retrospectivas, sujeitas a vieses como perfil socioeconômico, estado geral de saúde e disponibilidade de horários — fatores que podem influenciar o momento do atendimento.
Um ensaio clínico randomizado e controlado, publicado na revista Nature Medicine, traz evidências mais consistentes de que o horário do tratamento pode influenciar a resposta ao câncer. O estudo avaliou se alinhar a quimioimunoterapia aos ritmos circadianos — ciclos biológicos de cerca de 24 horas que regulam funções como metabolismo e atividade do sistema imunológico — melhora a sobrevida em pacientes com câncer de pulmão avançado.
A pesquisa incluiu 210 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células em estágio avançado (3C ou 4), tratados com quimioterapia associada a inibidores de checkpoint imunológico — pembrolizumabe ou sintilimabe. Os participantes foram divididos para receber as infusões antes ou depois das 15h, a cada três semanas, nos quatro primeiros ciclos.
Após cada sessão de imunoterapia, todos recebiam quimioterapia, considerada menos dependente do horário. Depois dessa fase inicial, o tratamento continuou sem controle rígido do horário. Ainda assim, os primeiros ciclos foram suficientes para gerar diferenças relevantes.
Com acompanhamento médio de 29 meses, pacientes tratados antes das 15h tiveram sobrevida global mediana de 28 meses, enquanto aqueles atendidos mais tarde apresentaram sobrevida entre 16,8 e 17 meses. A sobrevida livre de progressão também foi maior no grupo da manhã: 11,3 meses, contra 5,7 meses — redução de cerca de 60% no risco de progressão.
A principal hipótese envolve os ritmos do sistema imunológico, especialmente das células T, alvo da imunoterapia. Estudos indicam que essas células se concentram mais nos tecidos e no tumor durante a manhã, migrando ao longo do dia. Assim, a aplicação precoce poderia potencializar a resposta antitumoral.
Apesar disso, o mecanismo ainda não é totalmente compreendido. Especialistas destacam que o pembrolizumabe tem meia-vida superior a três semanas, o que dificulta explicar como diferenças de poucas horas gerariam efeitos prolongados.
Os autores também apontam limitações, como o número relativamente pequeno de participantes e possíveis vieses de seleção. Por isso, novos estudos são necessários antes de mudanças na prática clínica. A adoção da cronoterapia dependerá da confirmação desses resultados em pesquisas maiores.