Sábado, 15 de Junho de 2024

Home Economia Lula eleito: O que esperar da bolsa até o fim do ano?

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“Retorno passado não garante retorno futuro.” Ignorando essa máxima e se apegando a outra, a bolsa nacional pode engatar rali após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições à Presidência: “Antes certezas ruins que a incerteza”. Foi nessa pegada que, vencidas as disputas de 2002 e 2006, nas quais o mercado estava igualmente mais alinhado aos adversários petistas, que ações no Brasil entraram em disparada. Em ambos os anos, até o dezembro, cerca de 13% de ganhos para o Ibovespa.

Sim, 13, o número mais apertado nas urnas pelos brasileiros neste domingo. Bem mais que os 2,5% de estilingada depois da vitória do último presidente eleito (Jair Bolsonaro), em 2018.

“O mercado, em grande parte, vinha embutindo aos preços a vitória de Lula. Num primeiro momento, podemos ver alguma queda da bolsa”, diz Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital. “Mas, depois, devemos ver estabilização e o mercado voltando a ficar positivo para o Brasil. Em comparação aos emergentes, o país hoje está muito acima dos outros. O Brasil está muito bem quisto pelos investidores estrangeiros.”

Investidores estrangeiros

Há de se ponderar, nesse sentido, a inclinação dos investidores estrangeiros à Lula, e não ao candidato derrotado. Ainda assim, para repetir nesta finaleira de 2022 o mesmo resultado vistoso nas duas eleições anteriores do petista, o Ibovespa terá de suar.

A última semana deu mostras bastante práticas dessa dificuldade. Dentro da carteira teórica mais famosa do Brasil, foram estabelecidos dois feudos. Um favorecido, outro nem tanto pela volta de Lula ao mais alto posto da República. As ações especuladas como ideais para lucrar com a vitória do petista são dos ramos de educação, varejo e construção para baixa renda. Possuem bem menos peso no Ibovespa que as de bancões e estatais, lidas pelo mercado num primeiro momento como rota de fuga mirando eventuais interferências desastrosas na economia e no dia a dia das companhias.

“Vencesse quem vencesse, as ações de educação já apresentariam boas perspectivas de recuperação por, simplesmente, se verem livres das restrições de mobilidade trazidas pela pandemia”, explica Fernando Siqueira, executivo responsável pela área de análise da Guide. “Com Lula vencedor, essa recuperação tende a ser ainda mais rápida, caso se confirmem as promessas de retomadas de programas como ProUni e Fies.”

Consumo

No que diz respeito aos papéis ligados ao consumo, o raciocínio é semelhante. Se para estatais e bancões o mercado espera resultados afetados por excessos de interferência do estado, para ações de varejistas e construtoras essa mão mais pesada pode ser uma vantagem. Ao menos no curto prazo.

Além dos R$ 600 de Auxílio Brasil, Lula passou a campanha prometendo mais R$ 150 por filho até 6 anos. Adicionalmente, repetiu diversas vezes que retomaria os reajustes reais do salário mínimo que marcaram as gestões petistas. Em 13 anos, incluindo Dilma Rousseff, a dose de correção para cima foi de nada menos que 74% acima da inflação.

Mais pedras no caminho

Independentemente do vencedor, o mercado teria de enfrentar um mesmo problema. A recuperação do chamado arcabouço fiscal. Ou seja, uma política crível de controle de despesas, dada a conversão do teto de gastos em peneira ao longo dos últimos anos. Mas, ainda que cada um dos buracos tenha sido cavado pelo ministro Paulo Guedes, a complacência da média do mercado com seu discurso privatizante é contraposta pelas incertezas sobre qual será a nova equipe econômica.

Há dois grupos distintos de economistas com Lula. Um, defende mais gastos como instrumento de crescimento. Outro segue a linha ortodoxa, fiscalista, ao gosto do mercado. “A gente ouviu de tudo em relação ao fiscal ao longo da campanha”, comenta a economista-chefe Camila de Faria Lima, da Canvas Capital.

“Por ter apoio de um grupo de economistas ligados ao centro, criou-se a ideia de que Lula não fará nenhuma aventura fiscal. Até acho que seja esse o cenário principal, mas temos também falas de outros economistas que não permitem essa clareza. O mercado tem assumido, em certa medida, que deve haver alguma moderação. Mas me preocupa, nesta altura, ainda não ter visibilidade. Lula aponta o que fez quando foi presidente, mas não basta.”

Sonho

No sonho do mercado está o nome de Henrique Meirelles, que se mostra disposto a colaborar. Pai do teto de gastos, apoiou a candidatura Lula desde antes do primeiro turno. E a despeito do então candidato não se furtar em ventilar oficialmente a derrubada do limite fiscal erguido pelo economista, o ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central (BC) garantiu, sempre que possível: o terceiro mandato de Lula será uma reprise de sua primeira passagem pelo Planalto. Ou seja, ao lado da responsabilidade social estará a fiscal, e de maneira inegociável.

Já há sinais de que a economia brasileira está em processo de desaceleração, passados os efeitos dos anabolizantes eleitorais promovidos pelo Planalto. Caso esse movimento de perda de tração não seja acompanhado pela queda da Selic, será desenhado o pior cenário macro possível para varejistas.

Não haveria barateamento do crédito que sustentasse receitas perdidas pela fraqueza do crescimento econômico. Por outro lado, aos bancões, a manutenção do preço do crédito lá no alto poderia remediar o risco crescente de inadimplência.

Por fim, na última semana, o mercado passou a ponderar um risco a mais em caso de vitória de Lula. Não alimentado por ele, mas pelo adversário em caso de derrota: o de não aceitar o resultado das urnas.

Marco Maciel, sócio e economista da Kairós Capital, comenta que, ainda mais que outros riscos como o fiscal, o de instabilidade institucional e jurídica têm potencial de deteriorar as condições financeiras do Brasil.

“O risco jurídico e institucional, o chamado ‘jurisdicional’, é o mais sério de todos. Ultrapassa, de longe, o risco fiscal. O equilíbrio entre Poderes é fundamental para qualquer democracia”, diz. “O prêmio de risco mais alto dessa natureza bate no câmbio. Quando bate no câmbio, bate na inflação. Empresas usam como mecanismo de defesa contra a insegurança sobre o futuro aumentar preços, o que acabaria significando juros também mais altos no longo prazo.”

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