Domingo, 08 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 7 de fevereiro de 2026
O intestino virou um objeto de enorme fascínio. Influenciadores nas redes sociais promovem suplementos sem comprovação científica que prometem melhorar a saúde intestinal, enquanto marcas de leite e da bebida fermentada kombucha dizem nutri-lo com “bactérias boas”.
Alguns descartam essa obsessão como uma moda passageira. Muitos médicos, porém, avaliam que o microbioma intestinal pode influenciar uma ampla gama de fatores, da saúde mental à probabilidade de desenvolver certos tipos de câncer.
Há ainda outra possibilidade médica que me interessa em particular, que é como o intestino afeta a forma como envelhecemos: bem ou mal.
Foi por isso que, alguns meses atrás, estive no St Mary’s Hospital, em Londres (Reino Unido), conhecido pela descoberta da penicilina, me preparando para receber uma visão nada confortável sobre a minha própria saúde intestinal.
Eu estava lá para me encontrar com o médico James Kinross. Ele é professor de cirurgia no Imperial College London e cirurgião colorretal, mas talvez a parte mais inusitada de seu trabalho seja analisar fezes humanas.
Semanas antes, eu havia enviado minha própria amostra de fezes a um laboratório.
Testes desse tipo podem oferecer pistas sobre o nosso microbioma intestinal, os trilhões de microrganismos que vivem no nosso sistema digestivo (em sua maioria bactérias, mas também vírus e fungos).
“Sou um evangelista do microbioma”, afirmou ele. “Isso está profundamente enraizado em todos os aspectos da nossa saúde.”
Kinross acredita que o intestino pode ter um papel crucial no processo de envelhecimento, com consequências tanto para a longevidade quanto para o nível de força física na velhice.
Alguns especialistas avaliam que a importância do microbioma intestinal no envelhecimento tem sido exagerada, e todos com quem conversei concordam que são necessárias mais pesquisas.
Agora que estou na casa dos 60 anos e recém-avô, me parece um bom momento para descobrir o que o meu próprio intestino pode dizer sobre como enfrentarei as próximas décadas.
E também para tentar responder à grande questão: se a saúde intestinal de fato influencia o envelhecimento, o que podemos fazer para melhorá-la, se é que algo pode?
Iogurte diário
Maria Branyas Morera foi a pessoa mais velha do mundo. Após sua morte, em 2024, no norte da Espanha, aos 117 anos, cientistas coletaram amostras de suas fezes, sangue, saliva e urina e as compararam com as de 75 outras mulheres da Península Ibérica (sudoeste da Europa).
Segundo os pesquisadores, ela levava um estilo de vida amplamente saudável: morava no campo, caminhava uma hora por dia e seguia uma dieta mediterrânea rica em azeite.
Mas o que realmente a distinguia era o fato de que ela consumia três porções de iogurte por dia.
Manel Esteller, geneticista da Universidade de Barcelona (Espanha) e coautor do estudo, acredita que o hábito de comer iogurte pode ter proporcionado a Morera um nível elevado de bactérias benéficas capazes de reduzir inflamações.
“Ela tinha células que pareciam mais jovens do que sua idade”, diz Esteller.
Alimentação
Quanto à possibilidade de realmente melhorar o processo de envelhecimento por meio da alimentação, Esteller, da Universidade de Barcelona, se mostra otimista.
Ele ressalta que ainda há alguma “incerteza” sobre a relação entre saúde intestinal e envelhecimento, mas afirma que as evidências já indicam de forma relativamente clara que o que colocamos no prato pode afetar tanto a “morbidade quanto a mortalidade”.
Ou seja, quanto tempo vivemos e a probabilidade de permanecer com boa saúde na terceira idade. “Mesmo na mesma cidade, entre pessoas com alta renda, quem se alimenta melhor vive mais tempo”, afirma.
Esteller recomenda o consumo de azeite, que contém polifenóis que favorecem as bactérias intestinais, e de carne de anchova (Pomatomus saltatrix ou bluefish, em inglês), um peixe marinho de dentes afiados que contém ácidos graxos e é popular no Japão, país que registra uma das maiores expectativas de vida do mundo (84,5 anos), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Esteller também recomenda evitar açúcares brancos refinados e alimentos ultraprocessados sempre que possível, que podem prejudicar a diversidade de bactérias no intestino. (As informações são da BBC Brasil)