Domingo, 21 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 21 de junho de 2026
Moradores de várias cidades do Brasil receberam na noite de sexta-feira (19) e na madrugada de sábado (20) uma notificação de “alerta extremo” da Defesa Civil com uma mensagem incomum: em vez de avisar sobre uma ameaça real de desastre natural, a mensagem trazia a palavra “misantropia” ou variações como “misantropi4”.
A palavra, de origem grega, denota aversão, desconfiança ou desprezo pela espécie humana. É o oposto de filantropia. Não há nenhuma relação, portanto, com qualquer tipo de alerta de desastre e, segundo as Defesas Civis estaduais, nenhuma mensagem do gênero havia sido lançada ao sistema.
Os avisos chegaram a celulares de seis capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Rio Branco), além da população de diversos municípios de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal.
Todas receberam mensagens semelhantes com a palavra misantropia. Na capital mineira Belo Horizonte, porém, os alertas continham também expressões sobre ataques alienígenas.
Secretário nacional da Defesa Civil, Wolnei Wolff disse na manhã de sábado (20) que o caso, ao que tudo indica, envolve um ataque hacker.
No domingo (21), no entanto, um relatório do governo federal enviado a investigadores aponta que os alertas foram enviados a partir das credenciais de acesso de dois agentes da Defesa Civil do Pará.
As contas desses dois agentes foram bloqueadas e estavam autorizadas a enviar alertas apenas para o território paraense. O fato de terem conseguido encaminhar avisos a grande parte do território nacional, porém, “agrava a ocorrência”, segundo o governo federal.
Como aconteceu
A PF investiga o caso. Ainda não há informações sobre se os envios partiram dos titulares das contas ou se elas foram acessadas indevidamente. Segundo o Governo Federal, não houve dano estrutural ao sistema de alertas.
A plataforma foi retirada do ar por volta da 1h30 do sábado e não tem previsão para voltar a funcionar. “Quando ele voltará ao ar? Quando a gente tiver plena segurança de que foi capaz de fazer a troca das senhas para que tenha o mínimo de segurança de que os ataques não ocorrerão novamente”, afirmou Wolff.
O secretário nacional da Defesa Civil afirmou que o Ministério da Integração trabalha no desenvolvimento de uma nova versão para o sistema de alertas, mas não deu informações sobre quando ela deve começar a funcionar. “Eu não conseguiria aqui afirmar exatamente o dia em que essa versão vai ser concluída, mas nós estamos trabalhando nisso.”
Consequências
Analista de cibersegurança e perito digital, o advogado José Milagre, coordenador do núcleo especializado em crimes cibernéticos da CyberExperts, disse à Folha de S. Paulo que o maior risco envolve a perda de credibilidade do sistema de alertas.
“Se as pessoas passarem a desconfiar dos avisos, podem ignorar comunicações legítimas em situações reais de enchentes, tempestades ou outros desastres, o que aumenta significativamente o risco à segurança da população”, afirmou.
Já o pesquisador da USP Eduardo Mario Mendiondo avalia que o caso expôs a fragilidade do sistema de segurança. “Ainda não estamos em uma época de estação chuvosa, mas imagine se isso ocorrer em uma época em que as pessoas se preparam em função dos alertas da Defesa Civil? Estamos falando de milhões de pessoas afetadas”, disse.
Funcionamento
O sistema Defesa Civil Alerta usa a tecnologia cell broadcast para enviar mensagens de emergência aos celulares da população. A plataforma de disparo foi desenvolvida pela Anatel em parceria com o Cenad (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres) e chega a todos os celulares que tenham acesso às tecnologias 4G ou 5G.
O método de transmissão para os alertas é o Cell broadcast. Ele envia avisos simultaneamente para todos os aparelhos conectados a uma determinada antena de telefonia, sem a necessidade de número de telefone ou cadastro prévio. É diferente do SMS convencional, que envia mensagens individuais a cada número de telefone cadastrado.
Todo aparelho celular que esteja na região afetada e conectado a uma antena de telefonia com sinal 4G ou 5G receberá a mensagem automaticamente. A geolocalização é feita pela própria rede de telefonia: quem estiver dentro da área de cobertura da antena que retransmitir o alerta o receberá, seja um morador local ou não. A mensagem aparece como um pop-up na tela do celular, interrompendo qualquer outro uso: vídeos, aplicativos, tudo é pausado. (Com informações da Folha de S. Paulo)