Domingo, 14 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 13 de junho de 2026
A economista sino-americana Yan Liang, professora da Universidade de Willamette e pesquisadora do Levy Economics Institute e do Global Development Policy Center, vinculado à Universidade de Boston, avalia que o Brasil têm duas frentes principais de negociação com a Casa Branca contra a nova ofensiva tarifária da Seção 301, amplamente aplicada contra a China.
No caso brasileiro, os trunfos são as reservas de minerais críticos e o déficit comercial com os EUA. Ela ressalta que, apesar de não ser claro sobre as razões para lançar mão das tarifas, Trump sinalizou quatro propósitos para as sanções: geração de receitas, atração de investimentos estrangeiros, proteção da indústria doméstica e influência geopolítica.
“O que Trump essencialmente quer fazer é reconstruir sua terrível guerra tarifária”, disse em entrevista ao Valor Econômico.
Liang defende que o Brasil diversifique os parceiros comerciais, pois “o caminho mais seguro é não ter todos os ovos na mesma cesta, especialmente na cesta americana”, e acelere a cooperação bilateral com outros países.
A seguir os principais pontos da entrevista:
1. A Casa Branca propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras alegando problemas com o Pix e o desmatamento. Como a senhora avalia esse movimento?
Yan Liang: Esse movimento está direcionado a 59 países e à União Europeia. Portanto, não é particularmente direcionado ao Brasil, embora o Brasil tenha uma [tarifa] superior à de alguns países. O que Donald Trump essencialmente quer fazer é reconstruir sua terrível guerra tarifária. A IEEPA foi derrubada pela Suprema Corte e a seção 122 expira em julho. Então ele tem que usar uma nova lei que permita a imposição de tarifas.
2. O Brasil está enfrentando o mesmo que a China enfrentou na última década com a Seção 301?
Liang: Brasil, China e muitas economias asiáticas têm as alíquotas mais altas. Quando olho para o caso do Brasil, eles [autoridades] excluíram produtos, como petróleo bruto, café, carne bovina. Então há um bom número de produtos que estão isentos da seção 301. De acordo com o Global Trade Alert, a taxa tarifária efetiva ponderada para o Brasil será de cerca de 16,9% quando a Seção 301 entrar em vigor. O cálculo pega a taxa tarifária total e faz a média sobre o valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos, desconsiderando os itens que foram excluídos.
3. Mas olhando para a guerra comercial EUA-China, essa lista é sustentável ou costuma encolher à medida que as tensões politicas aumentam?
Liang: Há duas coisas. Uma é que a China tem a força de barganha das terras raras. Então, no ano passado, quando os dois lados estavam escalando a guerra tarifária, basicamente o que aconteceu é que a China restringiu as exportações de ímãs de terras raras para os Estados Unidos. Então isso forçou os Estados Unidos a recuarem. A China tem as terras raras de que os Estados Unidos precisam desesperadamente, e Trump percebeu que a China tem força de barganha. Mas, dito isso, as exportações chinesas para os EUA definitivamente caíram cerca de um terço no ano passado. Mas é claro que a China conseguiu exportar muito mais para outros países. Para os países da Asean, para a África, para a América Latina, para a Europa. É assim que a China resistiu a essa guerra tarifária.
4. A sra. acredita que esse pode ser um caminho para o Brasil, considerando que somos um grande exportador de commodities?
Liang: Há o que chamam de triangulação comercial. A China exportava para o México e para o Vietnā e depois tinha algum valor agregado localmente e então os produtos eram reexportados para os Estados Unidos. A diferença é que as exportações da China para os EUA têm muitos produtos industriais. Então isso torna esse tipo de triangulação comercial mais fácil. Se você está exportando minérios, petróleo bruto e produtos agrícolas, torna-se mais difícil passar por um terceiro país.
5. Há saída para o Brasil?
Liang: O Brasil tem pelo menos dois trunfos de negociação. Um é que o Brasil está, na verdade, registrando um déficit comercial com os EUA. Então isso é algo que poderia ser levado para Trump porque ele acredita em coisas do tipo: ‘Se você está tendo um superavit comercial, então você é mau.’ E o segundo são os minerais críticos. O Brasil é um país muito rico em recursos, rico em minerais. Vocês ainda têm muito potencial para desenvolver seu processamento e produção de minerais, vocês têm muitas jazidas. Os EUA assinaram quatro memorandos de entendimento com quatro países latino-americanos, e o Brasil não é um deles. Então acho que essa é outra coisa que o Brasil tem para negociar. (Com informações do Valor Econômico)