Terça-feira, 21 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 21 de abril de 2026
Essa é uma das frases que mais escuto no consultório… E ela nunca vem sozinha. Vem carregada de frustração, dúvidas e silêncio acumulado.
Geralmente, começa assim: “Tati, eu simplesmente perdi o interesse”. Ou então: “Ele acha que eu não gosto mais…”
E é aí que começa o erro. Vamos direto ao ponto: mulher gosta, sim, de sexo. E gosta muito. O que a mulher, em geral, não gosta, é de sexo ruim.
E aqui vai um alerta para os homens: na maioria das vezes, sexo ruim não tem nada a ver com desempenho. Tem a ver com ausência de conexão.
Sexo ruim é quando não existe presença. Quando não existe clima. Quando não existe construção. É o sexo que começa sem ter começado de verdade.
E aqui entra uma das maiores queixas femininas, atravessando gerações: a forma como muitas mulheres foram criadas. Uma educação onde o prazer foi reprimido, o desejo foi silenciado e o corpo foi tratado com culpa.
E isso não nasce em uma mulher, isso é passado de geração em geração. Por isso, entender o desejo feminino não é só sobre o presente. É também sobre história.
Diferente do homem, que muitas vezes responde de forma mais direta ao estímulo, a mulher é influenciada pelo contexto. E isso não é frescura. É funcionamento.
O desejo feminino não nasce no toque. Ele começa antes. E é exatamente aqui que muitos homens erram…
O desejo começa no olhar. Na forma como ela foi tratada ao longo do dia. No respeito. Na atenção. Porque, para a mulher, detalhe não é detalhe. É sinal.
E aqui está um ponto crucial: não existe conexão física sem conexão emocional para a maioria das mulheres.
O beijo importa. A forma como é tocada importa. As palavras importam. E, principalmente… as preliminares importam. Muito.
A pressa, muitas vezes, é inimiga do prazer. Um homem pode chegar em casa depois de um dia difícil e ainda assim estar pronto para o sexo.
Já a mulher, se passou o dia se sentindo ignorada ou sobrecarregada, dificilmente vai acessar o desejo com a mesma facilidade. E isso não é desinteresse. É caminho diferente.
A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo explica que o desejo feminino está muito mais ligado ao vínculo emocional e à qualidade da relação do que ao estímulo físico.
Ou seja, não é sobre “ter vontade ou não”. É sobre como essa vontade é construída. Então, talvez a pergunta não seja: “Por que a mulher não gosta de sexo?”
Mas, sim: “O que você está construindo antes de chegar nele?”.
Porque sexo não começa na cama. Começa na convivência. E aqui vai a parte que muitos ignoram, mas que muda tudo: não adianta querer resolver no quarto o que foi mal construído durante o dia.
Quer um exemplo simples? A capa do celular dela está velha, desgastada… Tu trocas por uma nova, sem avisar, e entrega na mão dela.
Não é sobre o celular. É sobre perceber. É sobre fazer ela se sentir cuidada.
Outro exemplo: um elogio no meio do dia. Uma mensagem inesperada. Um convite simples, sem ocasião especial.
Não é sobre gastar. É sobre criar um ambiente. Isso é o que alimenta o desejo. Casais que entendem isso sabem que o erotismo não é automático. Ele é cultivado. Na conversa sem distração, no riso compartilhado, no toque fora da cama.
E existe uma verdade que muita gente insiste em ignorar: não há desejo onde existe mágoa acumulada. Nenhuma mulher se entrega de verdade ao prazer quando se sente ferida ou emocionalmente distante.
Esperar que isso se resolva apenas no quarto é um dos maiores erros dentro de um relacionamento.
Portanto, não, mulher não só gosta de sexo. Ela precisa de um contexto onde esse desejo possa existir. E quando isso acontece, ela se envolve, se entrega — e vive o prazer de forma intensa e verdadeira.
Então, homens, se a dúvida ainda existe, talvez a pergunta final seja outra: você está despertando desejo ou apenas esperando que ele apareça?
Porque, no fim das contas, não é sobre sexo. É sobre conexão. E onde há conexão, o desejo sempre encontra o seu caminho.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante