Sexta-feira, 05 de Junho de 2026

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O que nós, trabalhadores, vivenciamos há décadas é um embate com uma parcela da elite empresarial e social que ainda não entendeu — ou não quer entender — que estamos todos do mesmo lado: o lado do desenvolvimento com inclusão e da evolução para todos.

Ao participar dos movimentos de mobilização pelo fim da escala 6×1 e acompanhar o avanço dessa pauta na Câmara dos Deputados, resgatei uma importante lembrança. Na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, nós, sindicatos de classe, articulados com as então recém-criadas centrais sindicais, promovemos grandes assembleias nos canteiros de obras para pressionar pela redução da jornada semanal de 48 para 40 horas. Uma reivindicação que, quase quatro décadas depois, continua atual.

É fundamental lembrar que a atual carga horária teve origem em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Ou seja, estamos há quase um século lutando por mais dignidade, qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Também não podemos esquecer que conquistas históricas, como a licença-maternidade, o FGTS, o aviso prévio, o repouso remunerado, as férias com adicional de um terço e tantos outros direitos, foram resultado da organização e da união dos trabalhadores. Na construção civil da nossa base sindical, inclusive, muitas conquistas foram além do que está garantido na legislação, fruto da mobilização coletiva e da negociação sindical. Entre elas, o desconto de apenas 3% sobre o vale-transporte.

Precisamos continuar lutando para concretizar mais esse avanço e combater o discurso de que reduzir a jornada significa diminuir a competitividade ou de que o Brasil não estaria preparado para essa mudança. Esse argumento coloca o lucro acima das pessoas e ignora evidências de que melhores condições de trabalho também podem gerar ganhos de produtividade, engajamento e qualidade de vida.

Aliás, esse mesmo discurso já foi utilizado no passado. Em 1962, quando se discutia a criação do 13º salário, um dos principais jornais do país estampou a manchete: “Considerado desastroso para o País um 13º mês de salário”. O texto afirmava que a medida teria caráter meramente eleitoreiro e provocaria prejuízos econômicos. Hoje sabemos que a história mostrou exatamente o contrário.

Aqui no Rio Grande do Sul, em 2001, quando foi instituído o piso regional, diversas entidades patronais também criticaram duramente a proposta. O argumento era de que um salário mínimo estadual superior ao nacional levaria ao fechamento de empresas e à demissão em massa, o que, segundo seus defensores, quebraria a economia gaúcha. Novamente, o tempo mostrou que essas previsões não se confirmaram.

Essa resistência demonstra como parte da elite econômica ainda tende a enxergar a força de trabalho apenas como um custo a ser reduzido, e não como pessoas que também têm o direito de usufruir dos frutos do desenvolvimento que ajudam a construir diariamente.

O verdadeiro desenvolvimento econômico só se sustenta quando caminha lado a lado com a justiça social. E essa não é apenas uma visão política ou ideológica, mas uma constatação apoiada em experiências concretas. Diversos estudos e iniciativas demonstram que jornadas mais equilibradas podem trazer benefícios para trabalhadores, empregadores e para a sociedade como um todo.

Além disso, importantes empresas brasileiras já adotam modelos mais modernos de organização do trabalho. Há empresários que defendem abertamente o fim da escala 6×1 e destacam ganhos de produtividade, retenção de talentos e melhoria do ambiente de trabalho.

No varejo, a marca de óculos Chilli Beans já conta com centenas de lojas operando na escala 5×2. A Vale, uma das maiores empresas do país, utiliza jornada de 40 horas semanais e escala 5×2 para seus funcionários, fruto de acordos firmados com entidades sindicais.

Também merece destaque a posição da CEO da Coffeelab, Isabela Raposeiras, que afirmou, em audiência na Câmara dos Deputados, que o fim da escala 6×1 não provocará o colapso do setor produtivo brasileiro. Segundo ela, a redução da jornada pode, inclusive, aumentar o faturamento das empresas. A empresária rejeita a ideia de que a mudança provocará aumento descontrolado dos custos da mão de obra ou pressão inflacionária.

É importante registrar esses exemplos porque há muitos empresários, empresárias e gestores que possuem uma visão mais moderna sobre produtividade, gestão de pessoas e relações de trabalho.

Mesmo assim, neste momento, em clima de Copa do Mundo, vale lembrar uma máxima do futebol: a partida só termina quando o juiz apita o fim do jogo.

O avanço da proposta na Câmara dos Deputados merece ser comemorado, mas representa apenas o fim do primeiro tempo. A vitória definitiva depende agora da aprovação pelo Senado Federal. Por isso, a mobilização precisa continuar nas redes sociais, nos locais de trabalho e nas ruas, para garantir que o texto avance sem retrocessos.

Os trabalhadores da construção civil seguirão fazendo sua parte com a mesma determinação de quem ergue cidades, ajuda a reconstruir o Rio Grande do Sul e contribui diariamente para o desenvolvimento do Brasil.

Nenhum passo atrás.

Porque a vitória só se consolida quando o Senado aprovar a proposta.

Gelson Santana – Presidente do STICC e secretário nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil, Construção Pesada e Montagem Industrial da UGT.

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